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1582

A chamada Embaixada dos Quatro Jovens à Europa na Era Tensho (1582-1591) é um episódio da antiga Igreja do Japão e um dos que, hoje em dia, têm maiores atractivos. É também uma história que tem uma profunda ligação com a cidade de Macau: os embaixadores passaram duas vezes por esta cidade e depois vários deles voltaram aqui por motivos de estudo ou desterrados. A embaixa da foi planeada pelo Padre Valignano, com uma dupla finalidade: levar ao Sumo Pontífice as saudações da Igreja do Japão e mostrar-lhe o seu progresso, e, no regresso ao Japão, fazer dos embaixadores testemunhas, perante os seus compatriotas, do que tinham visto na Europa.Valignano comunicou o seu projecto aos três dáimios cristãos de Kyushu: D. Francisco Otomo, dáimio de Bungo, que envia como seu embaixador Ito Mâncio, neto do daimio de Hyuga; D. Protasio Arima, dáimio de Arima e D. Bartolomeu Omura, senhor de Omura, que escolhem como embaixador Miguel Chijiwa, neto do dáimio de Arima, Haruzumi Sengan, que era sobrinho de Omura Sumitada e primo de Arima Harunobu. Os outros dois jovens, Martinho Hara e Julião Nakaura, eram filhos de vassalos principais de Omura Sumitada. As genealogias estão hoje em dia bem investigadas e os rumores de que os dáimios os não teriam enviado não passam de calúnias para desacreditar a legação. A embaixada sai de Nagasáqui a 20 de Fevereiro de 1582, chega a Portugal a 11 de Agosto de 1584, estão em Roma de 22 de Marco de 1585 a 3 de Junho, e voltam a Nagasáqui a 21 de Julho de 1590. Estiveram em Macau, à ida, de 9 de Março de 1582 a 31 de Dezembro, e à volta, de 28 de Julho de 1588 a 23 de Julho de 1590. Macau foi o seu primeiro contacto com um país estrangeiro, e há poucos dados sobre essa primeira estada. No regresso ficam, por falta de embarcação, dois anos; são já homens, com uma experiência rica, e temos dados abundantes sobre a sua estada. Como durante a viagem recebem a notícia da morte do Cardeal D. Henrique e da anexação de Portugal a Espanha, a sua primeira visita a Portugal limita-se a descansar e a visitar alguns lugares, embora a sua primeira visita a Évora, festejados pelo bispo D. Teotónio de Bragança, e a Vila Viçosa, hóspedes do Duque de Bragança, os ponha em contacto com o mundo político e religioso da Península Ibérica. A caminho de Madrid iniciam uma série de peregrinações com a visita ao Mosteiro de GuadaluPadre Em Toledo, Miguel Chijiwa adoece gravemente e, ao chegar a Madrid, também Martinho Hara adoece, mas todos estão em forma para assistir ao juramento do Príncipe D. Filipe, filho de Filipe II. Vão para Itália, e depois da sumptuosa recepção feita por Sua Graça o Grão-Duque de Medicis, seguem para Roma. Chegam a 22 de Março, e a 23 é a recepção solene, em Consistório, pelo Papa Gregório XIII. Julião Nakaura está gravemente doente, mas consegue uma visita privada ao Papa, a qual marca a sua vida. Duas semanas mais tarde morre Gregório XIII, sucedendo-lhe Sixto V, que trata os embaixadores com o mesmo afecto paternal. O Senado de Romaconcede-lhe sotítulo de cidadãos romanos. Saem de Roma cobertos de honrarias e, numa viagem minuciosamente contada em numeros os documentos, passam pelas cidades de Bolonha, Ferrara, Veneza, Mântua e Milão, embarcam em Génova e atravessam o Mediterrâneo até Barcelona. Dali, depois de uma peregrinação a Monserrate, vão despedir-se de Filipe II, que estava nas cortes de Monzón, e voltam a Portugal. Enquanto não chega a altura de embarcar, vão a Coimbra, onde entram em contacto com o mundo universitário; estudam música em Lisboa e adquirem ali uma máquina impressora e os caracteres móveis que introduzirão no Japão; ao mesmo tempo, os seus companheiros Jorge Loyola e Constantino Dourado iniciam-se na arte da imprensa e no fabrico dos tipos para a imprensa. Chegam a Goa a 29 de Maio de 1587 e aqui voltam a reunir-se com o Padre Valignano, e seguem para Macau, onde chegam a 28 de Julho de 1588. Aqui recebem as notícias da perseguição iniciada por Toyotomi Hideyoshi e da morte de D. Francisco Otomo e de D. Bartolo- meu Omura. Alojam-se numa casa nos terrenos do Colégio e, enquanto esperam dois anos para partirem para o Japão, dividem o seu tempo entre o estudo e a música. No dia de Ano Novo de 1589 deram um concerto na igreja da Companhia. Chegados ao Japão, vão descansar no Seminário de Arima, então em Hachirao, onde comunicam aos alunos os seus conhecimentos de música europeia. Dali partem para Quioto, para acompanharem o Padre Valignano na apresentação da sua embaixada perante Hideyoshi, a quem obsequiam com canto e música.Terminada esta difícil missão voltam a Kyushu, onde apresentam a Arima Harunobu a resposta do Papa à sua legação, e fazem depois o mesmo perante D. Sancho Omura, que tinha sucedido ao pai. Finalmente, a 25 de Julho de 1591, entram no noviciado da Companhia de Jesus, que era então em Kwachinoura, em Amakusa. Pouco a pouco, os seus caminhos separam-se: Miguel Chijiwa, doente e com pouca aptidão para o estudo, deixa a Companhia e vai servir o primo, D.Sancho de Omura; Mâncio Ito e Julião Nakaura voltam em 1601 a Macau, onde estudam Teologia durante três anos, e a seguir de novo no Japão, trabalham no seminário e na igreja de Hakata. Ordenados sacerdotes em 1608, Ito Mâncio vai para a igreja de Kokura, de onde, expulsosos Missionários em 1611, volta a Nagasáqui, e morre de doença, no Colégio, a 13 de Novembro de 1612. Em Novembro de 1614 todos os missionários são expulsos do Japão: o Padre Mesquita morre dias antes de partir, na praia de Nagasáqui; Martinho Harae Constantino Dourado vão para Macau, onde Constantino consegue finalmente ser ordenado sacerdote e é nomeado reitor do seminário, mas morre em 3 de Julho de 1620, e Martinho Hara, depois de anos de apostolado, morre em 23 de Outubro de 1629. Julião Nakaura fica no Japão, escondido, na povoação de Kuchinotsu, de onde atende a outras regiões. Depois de uma vida heróica com o missionário clandestino é feito prisioneiro em Kokura em finais de 1632, enviado para o cárcere de Crusmachi em Nagasáquie, após dez meses de cárcere e de julgamentos, morre na tortura da fossa na colina Nishizaka, a 21 de Outubro de 1633. Nesse mesmo ano iniciou-se em Macau o processo da sua beatificação. Esse processo, interrompido durante longos anos, foi retomado e está actualmente em andamento em Roma. A história dos Quatro Legados, as numerosas obras e scritas sobre eles e a influência que exerceram na música, arte,literatura e sobre tudo nas relações com Roma nos séculos XVI e XVII, fizeram deles figuras importantes da história japonesa dessa época. [D.Y.]Bibliografia: FRÓIS, Luís, La Prémiere Ambassade du Japon en Europe, (Tóquio, 1942); SANDE, Duarte de, Diálogo sobre a Missão dos Embaixadores Japoneses à Cúria Romana,(Macau, 1997); YUUKI, Diego, Os Quatro Legados dos Daimios de Quiuxu após Regressarem ao Japão, (Macau, 1990).

1588

Em 1588, o Pe. Valignano deixa Goa a caminho de Macau, onde chega no espaço de 3 meses. Sai para o Japão depois de cerca de 2 anos de permanência em Macau (e de acção no domínio da Imprensa de caracteres móveis), em 29 de Junho de 1590. A primeira obra da imprensa de caracteres móveis de tipo ocidental em Macau, é de João Bonifácio: Christiani Pueri Institutio. O parque tipográfico encontrava-se em Macau à espera de monção para seguir rumo ao Japão, seu destino. (Cfr. Silva, Beatriz Basto da, “Alexandre Valignano, S. J. e o IV Centenário da Imprensa de caracteres móveis em Macau”, RC (Revista de Cultura), nº 6, Macau, 1988, pp. 11 - 18) Primeira impressão tipográfica de modelo ocidental, em Macau (a já citada obra de J. Bonifacius); a segunda impressão do mesmo sistema em Macau é a edição dos Padres Duarte de Sande e A. Valignano, em 1590 (já citada).

1620

No dia 28 de Julho de 1620, foi atacado por holandeses o patacho S. Bartolomeu, capitaneado por Jorge da Silva, quando seguia na sua viagem para o Japão. Os negociantes que iam nele prometeram construir uma ermida a Nossa Senhora da Penha de França, no caso de saírem salvos do ataque, promessa que cumpriram, entregando a sua oferta ao prior do Convento dos Agostinhos, Simão de St.º António e ao Procurador do mesmo Convento, Fr. Aurélio Coreto.

1669

No dia 28 de Julho de 1669, entrou no porto o patacho de Miguel Grimaldi, tendo por capitão José Pinheiro, que trouxe parte do empréstimo feito a Macau pelo Rei do Sião, na totalidade de 665 cates de prata. (Na época, cada c. prata = 3 mil cruzados). O Senado acabou o reembolso ao Sião em prestações, no primeiro quartel do século seguinte. No dia 10 de Agosto de 1669, vindo do Sião, entrou o patacho de D. Catarina de Noronha, filha do ex-Capitão- Mor Manuel da Câmara de Noronha, viúva e rica.

1710

CASTRO, FRANCISCO DE MELO E (?-?). Cavaleiro fidalgo, Francisco de Melo e Castro era natural de Lisboa e filho bastardo de António de Melo e Castro. Em 1695, partiu para a Índia com o objectivo de seguir a carreirra militar. Recomendado pelo rei em 1700, ocupou diversos postos militares em Goa e em Damão. Por carta patente de 9 de Abril de 1710, foi nomeado para o governo de Macau para substituir Diogo de Pinho Teixeira (1706-1710). O novo governador chegou a Macau em Junho de 1710, quando a cidade se encontrava em grande alvoroço devido às graves contendas que Diogo de Pinho Teixeira mantinha com o Senado. Com a intervenção do bispo, D. João de Casal, e do Jesuíta, padre João Ferreira, acabado de chegar de Goa, apaziguaram-se os ânimos e Francisco de Melo e Castro pôde tomar posse do seu cargo a 28 de Julho de 1710. Por razões que a documentação disponível não explicita claramente, o novo governador foi desapossado e substituído por António Siqueira de Noronha passados escassos onze meses. Os conflitos assinalados na documentação revelam um certo desrespeito pelos moradores e uma certa arrogância por parte do governador, mas a sua gravidade não era de molde a justificar esta extemporânea destituição. Crítico da situação de subalternidade a que a legislação havia remetido o governador em relação ao Senado, Francisco de Melo e Castro, em carta ao rei, denunciava esta situação e, considerando que numa cidade tão pequena não havia lugar para o Senado e para o governador, propunha que fosse extinta uma destas instituições. Obrigado a regressar à Índia, aqui se manteve aguardando o desfecho do processo que lhe foi instaurado na Relação de Goa. A sentença deste tribunal, ilibando Francisco de Melo e Castro de qualquer responsabilidade nos acontecimentos de Macau, foi ratificada pelo Conselho Ultramarino em 1714. Com esta decisão, o ex-governador ficava de novo habilitado para o serviço régio, sendo, em 1717, nomeado para o governo de Timor. Incapaz de controlar as rebeliões que encontrou, e contrariado com a oposição movida pelo bispo de Malaca, D. Frei Manuel de Santo António, decidiu abandonar o seu posto. Aproveitando um barco de Macau, fugiu de Timor para Batávia e daqui seguiu para Goa, onde se encontrava em 1721. Sujeito a novo processo, Francisco de Melo e Castro manteve-se em Goa, mas desconhece-se o que lhe aconteceu a partir desta data. Bibliografia: BOXER, Charles R., Estudos para a História de Macau, séculos XVI a XVII, (Lisboa, 1991); MARIA, José de Jesus, Asia Sínica e Japónica, 2 vols., (Macau, 1988); SALDANHA, António Vasconcelos; ALVES, Jorge Manuel Santos (dirs.), Os Governadores e Capitães Gerais de Macau (no prelo); TEIXEIRA, Manuel, Macau no século XVIII, (Macau, 1984).

1710

De 1710 a 1711 governou Macau Francisco de Melo e Castro, natural de Lisboa. Teve fricções com a Ouvidoria e com a Misericórdia. V. Governadores De Macau, Coordenação de Jorge Santos Alves e António Vasconcelos de Saldanha. Investigação e textos de Paulo Sousa Pinto, António Martins do Vale, Teresa Lopes da Silva e Alfredo Gomes Dias. Editora Livros do Oriente, Portugal, 2013…, p. 81-82. No dia 28 de Julho, Francisco de Melo e Castro tomou posse do Governo de Macau do qual foi desapossado um ano depois, pelo seu procedimento despótico. Foi mais tarde nomeado Governador de Timor e Solor. Esta posse e a morte do Cardeal Patriarca Carlos Tomás Maillard de Tournon, sucedida em 8 de Junho, puseram termo aos lamentáveis conflitos entre o Senado e o Governador Diogo de Pinho Teixeira e em que tomaram parte principal os jesuítas e outros regulares. Francisco de Melo e Castro, após a entrega do governo, recolheu-se ao Colégio de S. Paulo, mas logo no dia seguinte voltou a residir na Fortaleza do Monte. Mais tarde, em 17 de Setembro, tomou de arrendamento, à imitação do seu antecessor, as casas do Pe. Leonel de Sousa, sitas na Praia Grande, no mesmo local onde foi, sucessivamente, o Palácio do Governo, a Repartição de Fazenda, o Tribunal, o Banco Nacional Ultramarino, o Palácio das Repartições. Hoje é apenas o antigo edifício do Tribunal.

1733

No dia 28 de Junho de 1733, o Senado andava desesperado: para qualquer lado que se virasse, só via males: querelas intestinas, perturbações dos mandarins, falta de dinheiro e, a luzir no horizonte, o espectro da fome. Ocorre-lhe pedir, como sempre, ajuda aos jesuítas e nesta data escreve ao Pe. Domingos Pinheiro S.J., o Provincial: Entre as várias desgraças que se abateram sobre Macau, uma das maiores é a falta de um celeiro de arroz; os chinas põem preços exorbitantes; e por qualquer questão com os escravos dos portugueses, eles fecham as lojas, “deixando perecer toda esta terra sem mantimentos”. O único meio que se “antolha ao Senado para obviar a estes inconvenientes” é pedir ao Provincial conceda licença aos padres da Casa de S. José para abrir ali um celeiro de arroz à sua custa e sob a sua administração, dada a falta de dinheiro da parte do Senado. Este espera pagar com os direitos que tirar da vinda dos barcos. O Provincial, a 28 de Julho, escreveu de Pequim ao Governador António de Amaral e Meneses: “esta cidade corre perigo de ser tomada pelos chinas...”. Em face deste aviso tão sensato do jesuíta de Pequim, o Senado resolve, a 31 de Outubro de 1733, abrir um celeiro de arroz. Não havendo dinheiro, “se ofereceo o Juiz Ordinário António da Lança Vasconcellos de fazer toda a dilligencia para que este negocio de tanta importância tenha effeito”.

1752

No dia 28 de Julho de 1752, o Governador João de Melo, a 28 de Julho, avisa que no dia seguinte, sábado, dará posse do Governo ao seu sucessor, D. Rodrigo de Castro, o que de facto se verificou. No dia 29 de Julho de 1752, Tomou posse do Governo de Macau o Moço-Fidalgo D. Rodrigo de Castro, natural de Goa. Durante o seu governo efectuou-se a embaixada de Francisco de Assis Pacheco de Sampaio ao Imperador Kien-Lung. Sendo substituído em 1755 por Francisco António Pereira Coutinho, voltou a governar esta cidade em 1770. Foi nomeado ainda terceira vez, morrendo porém na viagem, como se documenta seguidamente:D. Rodrigo de Castro, mais uma vez nomeado Governador de Macau, teve um naufrágio de que não morreu, facto assinalado pela carta do Governo da Índia, de 22 de Agosto de 1776, recomendando que lhe fosse prestado auxílio. Aliás uma outra carta de 15 de Maio de 1776, também do V.R. da Índia, e também a recomendar o mesmo D. Rodrigo, trata-o igualmente como “Illmo. Gov.”. (cfr. “Livro de Registo das Ordens do Governo Superior de Goa desde 12 de Abril de 1768 até 8 de Maio de 1773, N.° 62”). D. Rodrigo de Castro salvou-se pois desse naufrágio. É possível que esta sua terceira nomeação tenha a ver com a suspensão de Salema e Saldanha, em 12-V-1776 (cfr. Arquivos de Macau, Tomo I, 1983, p. 104), devendo D. Rodrigo substituí-lo. Mas isso é que não chegou a acontecer, porque D. Rodrigo de Castro morreu em viagem, à saída de Malaca e a caminho de Macau. Pelo que são abertas vias de sucessão e é nomeado Governador, em 25 de Junho de 1777, o Bispo da Diocese, D. Alexandre Pedrosa Guimarães. Até lá, mesmo suspenso, Salema e Saldanha deve ter feito a ponte governativa, (cfr. esta Cronologia…, 1767, Agosto, 19; e 1771, Julho, 26.

1825

No dia 4 de Maio de 1825, por Carta Régia dirigida aos Juízes, Vereadores e Procurador do Senado de Macau e por proposta destes, foi concedida ao Capitão de Mar-e-Guerra Joaquim Mourão Garcez Palha, além da comenda honorária da Ordem de Cristo, a pensão anual de 500 taéis com sobrevivência nos seus descendentes legítimos. No dia 28 de Julho de 1825, Toma posse do cargo de Governador e Capitão Geral, o Capitão de Mar-e-Guerra Joaquim Mourão Garcez Palha.

1831

Escritor norte-americano, comerciante, desenhador, coleccionador de espécimes naturais, interessado em fotografia e membro da Academia de Ciências Naturais de Filadélfia, filho dos famosos actores de Filadélfia, William Burke Wood (1779-1861), empresário que funda o teatro Old Drury, e Juliana Westray Wood (m. 1836), autora da obra Sketches of China: With Illustrations from Original Drawings (1830). Wood nasceu em 1804 e aos vinte e cinco anos foi contratado como ilustrador da firma Titian Peale and Charles A. Le Seur, tornando-se, mais tarde, director do Museu de Baltimore. O jovem parte para a China em 1825, em busca de fortuna, fundando, juntamente com Alexander Matheson, funcionário da firma Magniac & Co., em Novembro de 1827, o primeiro jornal em língua inglesa de Cantão, o Canton Register, no qual desempenha a função de editor até ao seu quarto número. Wood regressa a Filadélfia em 1829 e publica Sketches of China no ano seguinte, sem grande sucesso imediato. Aos vinte e cinco anos de idade regressa à China com Joseph Archer, um comerciante seu conterrâneo, para fundar uma nova firma comercial e recolher espécimes naturais a pedido da Academia das Ciências Naturais. Wood chega a Macau em 12 de Fevereiro de 1831, sendo aí apresentado (01-03-1831) a Harriett Low por Thomas Beale, seu velho amigo. Os jovens acabam por se apaixonarem um pelo outor e troca correspondência quando o primeiro se encontra em Cantão, embora os tios da jovem proibam a relação amorosa. Em 4 de Julho de 1831, Wood leva uma “Camera Obscura” à casa dos Low, e, no ano seguinte, permanece algum tempo em Macau ensinando a jovem Low a desenhar, por entre passeios a pé. Wood estabelece-se na feitoria francesa, emprega-se como escriturário da Russell and Company, dirigida pelo tio de Harriett, Wiliam Henry Low – que o deseja afastar da firma –, e o jovem funda, um outro jornal, o Chinese Courier, com curta existência para competir com o Canton Register, sendo um órgão de comunicação social que não privilegia apenas a voz da Companhia das Índias inglesa, pois, no mesmo, o jovem queixa-se do isolamento em que a (cruel) comunidade estrangeira vive em Macau e critica as actividades missionárias ocidentais na China, o que lhe vale um quase duelo, marcado em Macau, com o irlandês Arthur Saunders Keating (m. Macau, 21-10-1837), editor do Canton Register. O primeiro número do novo semanário saiu em 28 de Julho de 1831, com uma assinatura de doze dólares por ano (sede em Cantão: n.º 5 do French Hong) e pretendia estimular o quotidiano cantonense, como o próprio Wood afirmava. O Courier seria um jornal de imprensa diferente, “livre” e independente dos interesses da Companhia das Índias inglesa, ou seja, Wood critica o Canton Register, Charles Marjoribanks e todo o Comité Selecto da Companhia das Índias por não terem agido prontamente e permitido que os portugueses de Macau protestassem junto das autoridades chinesas sobre o roubo e espancamento do capitão W. R. Lester a bordo de uma embarcação portuguesa que se dirigia de Lintim para Macau. O jornal critica também a ‘escola’ missionária do Dr. Robert Morrison na China, cuja acção junto dos chineses é ineficaz. Em 15 de Agosto de 1831, após o terceiro número (11- 08-1831), Wood ataca directamente o Comité Selecto do “monstro comercial” (a Companhia que detém o monopólio) por ter ameaçado parar o comércio com os chineses após a destruição do jardim da Companhia e do insulto ao quadro de George IV. Harriett Low discorda das últimas críticas de Wood à Companhia inglesa e, em Dezembro de 1832, confessa à irmã os seus sentimentos por Wood (“youth”), caracterizando- o longamente: excelente desenhador e seu apaixonado, correspondente e professor de desenho, de bons princípios e carácter, pouco atraente mas com um ar de intelectual, olhos azuis, cabelo castanho, sorriso doce, alto, de boa figura, um cavalheiro, falador, impetuoso, inteligente, bom comerciante, honesto e orgulhoso. No Chinese Courier, Wood assina os seus textos sob pseudónimos como Hesperus (24-12- 1831) e redige críticas de espectáculos de ópera em Macau (02-07-1833). A última edição do jornal sai em 23-09-1833, partindo Wood para as Filipinas em 15 de Outubro, mas voltaria ainda a Macau e visitaria a Europa, não se sabendo ao certo se regressou aos Estados Unidos. Relativamente a Sketches of China, durante uma das muitas festas a bordo de uma embarcação no Rio das Pérolas (22-07-1831), Harriett Low contempla uma paisagem a que hoje poderíamos chamar de Chinneriana, uma sampana dirigida por duas jovens, transcrevendo um excerto da obra, que refere essa mesma prática feminina. A obra do jornalista que reside em Macau durante as trading seasons dedica algumas páginas ao enclave, falando da beleza da península vista do mar. O autor descreve a localização geográfica da cidade, os portos interior e exterior, bem como o ancoradouro da Taipa, a Porta do Cerco, os soldados chineses que aí se encontram e que são facilmente subornáveis se a curiosidade levar o visitante a atravessar a fronteira, as várias aldeias que se formaram dentro das muralhas, o “poder nominativo” dos portugueses, os governos português e chinês do território, os cerca de quatrocentos soldados portugueses (na sua maioria naturais de Goa e de Macau), não se encontrando nem homens nem armas preparados para o serviço militar activo. O texto refere ainda os fortes (de S. Francisco, do Monte, da Guia, do Bispo e as Baterias de Água e Semicircular), alguns com capelas e canhões ineficazes, e que em “mãos competentes” constituiriam uma eficaz defesa para a cidade. A única escola pública é o Colégio de S. José, onde os professores (excepto o de Inglês) são clérigos, e cujos estudantes se distinguem pela farda que usam: uma batina longa e preta, um barrete quadrado e uma tira estreita (gola de musselina) branca à volta do pescoço. A biblioteca da instituição é considerável, contendo sobretudo velhas obras teológicas e manuscritos sem interesse. No entanto, o autor confessa, interessado pela história da cidade, não ter examinado essas fontes, pois poderia ter sido recompensado com alguma descoberta sobre a história do início de Macau. As igrejas são inúmeras, a população não tem falta de instrução religiosa, e as festividades são tantas que Wood, em tom de brincadeira, afirma poderem os alunos da cidade gozar duzentos e vinte e cinco feriados durante o ano. Já a população é descrita como fanática, intolerante e fortemente manipulada por padres católicos, muitos deles ignorantes. Relativamente ao número de habitantes, Wood contabiliza juntamente os três mil portugueses, os reinóis, os cafres e os mestiços e, por outro lado, os quatro mil chineses dentro das muralhas, alguns dos quais se ocupam da limpeza das ruas, juntando o lixo para produzir adubo. No mercado chinês abunda peixe barato depositado previamente na alfândega da Praia Grande para pagamento de impostos, processo esse também descrito pelo autor. As casas dos portugueses são espaçosas, mas sombrias e desconfortáveis devido à não utilização das lareiras e à escassez de tapetes e mobília, sendo o soalho pintado, imitando o mármore. Wood elogia a construção de casas como a Casa Garden, informando que as habitações ocupadas por residentes anglófonos são confortavelmente equipadas com fogões ou grelhas. O comércio de mercadorias estrangeiras e o contrabando são também referidos, enquanto se descrevem as sampanas conduzidas por “donzelas anfíbias” e outros meios de transporte terrestre como o palanquim ou a cadeirinha e o cavalo, este último apenas utilizado por alguns residentes estrangeiros. Um subcapítulo ocupa-se da Gruta de Camões, encontrando-se a Casa Garden arrendada pela família Pereira a um inglês (Christopher Augustus Fearon) com a condição de a entrada nos jardins, onde se encontram algumas cobras – como em muitos outros locais da cidade –, nunca ser negada aos visitantes. O autor relaciona ainda a construção da muralha da cidade com a lenda-superstição (ignorante) que afirma que esta fora construída com mão-de-obra dos holandeses aprisionados aquando da tentativa de tomada da cidade, salva por intermédio de Santo António, que, de acordo com os macaenses, desceu dos céus e afugentou os inimigos. Um olhar interpretativo de um residente norte-americano, o missionário norte-americano David Abeel, refere também essa mesma “superstição” que lhe é relatada por um morador católico, comparando as (intolerantes) missões católicas com as missões protestantes e presbiterianas. Ainda quanto ao jovem desenhador, este descreve igualmente o Templo de Á-Má (Mage Miao 媽閣廟) e as suas vizinhanças (chinesas), monumento que, para além da sua “situação pitoresca”, é objecto de uma singular superstição. W. W. Wood apresenta, na sua obra, quer quadros do quotidiano luso e chinês da Macau oitocentista quer a decoração interior das casas dos portugueses e alguns dos monumentos e paisagens que marcam presença na maioria dos relatos ocidentais do enclave. William C. Hunter transcreve um poema da autoria do jovem em The ‘Fan Kwae’ e define Wood como “desenhador” e “poeta” pouco atraente, mas bem humorado, inteligente, educado e muito amigo do pintor George Chinnery (Bits of Old China). [R.M.P.] Bibliografia: Chinese Courier, 28/07/1831; HUNTER, William C., The ‘Fan Kwae’ at Canton Before the Treaty Days. 1825-1844, (Londres, 1882); HUNTER, William C., Bits of Old China, (Londres, 1885); LOW, Harriett, Lights and Shadows of a Macao Life: The Journal of Harriet Low, Travelling Spinster – Part One: 1829-1832, (Woodinville, 2002); PICKOWICZ, Paul G., «William Wood in Canton: A Critique of the China Trade before the Opium War», in Essex Institute Historical Collections, vol. 107, (Janeiro de 1971), pp. 3-34; WOOD, W. W., Sketches of China: With Illustrations from Original Drawings, (Filadélfia, 1830).

1844

( 3 de Julho de 1844) Assinatura, numa mesa de pedra de um templo chinês de Mong-Há, em Macau, do primeiro Tratado Sino-Americano, o “Tratado de Wanghia”. O local é ainda hoje um ponto histórico de visita obrigatória. Este acto diplomático patenteia o interesse dos E.U.A. pelo território como plataforma de acesso à China. Assinou o documento, como ministro plenipotenciário dos E.U.A., Caleb Cushing, que tinha chegado a Macau a 24 de fevereiro desse ano; pelo lado chinês assinou Qi Ying, comissário imperial e vice-rei dos dois Kuang. A 28 de Julho de 1858 foi acrescentado ao Tratado um artigo sobre emigração livre entre os dois países, incluso na “Convenção Nacional”. (Cfr. toda a Revista de Cultura RC, ed. int., n.º 29, Instituto Cultural, RAEM, Janeiro 2009).

1882

No dia 6 de Julho de 1882, o número de leprosos em Pac Sa Lan, na Ilha de D. João, é de 40 homens solteiros e 7 casados (sem as mulheres). As mulheres leprosas são 18 e foram admitidas já com a doença; 2 são casadas mas não estão com os maridos, 11 são solteiras, 5 são viúvas e 4 destas entraram já viúvas, trazendo consigo duas filhas menores (ao que parece pela simples soma de dados, não portadoras da doença). É-lhes proibida cohabitação, mas é “impossível evitar que tenham correspondência”. Os lázaros cultivam uma várzea para sua ocupação e sobrevivência. No dia 28 de Julho do corrente ano, é regulada a admissão de lázaros no depósito de Pac Sa Lan, e determinadas medidas com respeito aos encontrados nas ruas. Determinado que o depósito destinado a indivíduos do sexo masculino seja completamente separado dos das mulheres.

1891

No dia 28 de Julho de 1891, corre em Cantão e é enviada pelo Cônsul Português ao Governo de Macau a tradução da notícia publicada no jornal chinês de Cantão, Ling Mau Chi Pou, acerca da hipotética proposta feita pelo Governo Português sobre a venda de Macau. (Cfr. esta Cronologia…, 1892, Abril, 30).

1919

Adé, como era conhecido, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919 e faleceu num hospital de Hong Kong, em 24 de Março de 1993. Filho de Francisco dos Santos Ferreira, natural de Seia, que para Macau veio como militar, e de Florentina Maria, natural de Macau, Adé viveu uma infância e juventude difíceis, já que o pai cedo lhe faltaria. Ficou órfão com apenas 5 anos de idade, sendo o mais novo dos 18 filhos de Florentina Maria, já viúva quando casara com Francisco Ferreira. O jovem José Inocêncio frequentou o Liceu Central de Macau, mas ao concluir o 5.º ano as dificuldades económicas obrigaram-no a interromper os estudos, motivo pelo que começou a trabalhar como as salariado das Obras Públicas com a idade de apenas 17 anos. Em 1943 ingressou nos quadros dos Serviços de Saúde e Higiene e, em 1956, passou a Chefe de Secretaria do Liceu de Macau, onde iniciou uma empenhada acção em prol dos estudantes mais desfavorecidos, que praticaria toda a sua vida. Para completar o magro vencimento do funcionalismo, foi ao longo desses anos cumulativamente dando aulas de português a chineses, fazendo traduções e trabalhando em diversos jornais. Assim, vêmo-lo ligado, a nível profissional, a vários periódicos macaenses como O Clarim, a Comunidade e a Gazeta Macaense, de que foi Chefe de Redacção, tendo estado na origem dos dois últimos, tal como do Notícias de Macau. Foi também correspondente dos jornais Diário de Notícias, Diário do Norte, Diário Popular, Volante, China Mail e da agência noticiosa Associated Press, colaborador da revista Renascimento, de periódicos desportivos, bem como do jornal infantil, Tio Tareco. Em 1960 deslocou-se a convite da companhia S.A.S. à Suécia, visitando Portugal de seguida. As crónicas dessa viagem estão reunidas no seu primeiro livro, Escandinávia. Região de Encantos Mil, publicado em 1961. Aposentando-se em 1964, passou a trabalhar na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, S.T.D.M., como seu Secretário-Geral, cargo que exerceu até à morte. Dotado de espírito solidário e sendo um incansável lutador, José dos Santos Ferreira não deixou de se associar às instituições tradicionalmente macaenses, tendo integrado, entre outras, a Mesa Directora da Santa Casa da Misericórdia e a Direcção do Clube de Macau, mas foi sobretudo ao nível desportivo que mais entusiástico contributo deu às associações locais. Sendo um dos fundadores e dirigentes do Hóquei Clube de Macau e da Associação de Futebol de Macau, pertenceu ao Conselho dos Desportos, foi Presidente da Direcção e da Mesa da Assembleia-geral do Clube de Ténis Civil. Vêmo-lo ainda ligado ao karate-do e ao tiro; organizador de digressões e de torneios de quase todas as modalidades desportivas, que também praticava, motivos pelos quais alcançou, em 1983, a Medalha de Mérito Desportivo do Governador de Macau. Em 1953 publicou num jornal local os seus primeiros poemas em patoá –o dialecto macaense, hoje quase extinto, a cujo estudo e divulgação Adé dedicou grande parte da sua vida. Contudo, Macau Sã Assi, o seu primeiro livro em língua maquista, só saiu em 1968, marcando o início de um labor que originará mais de vinte títulos, na sua quase totalidade em patois, inicialmente publicados pelo autor (alguns dos quais foram posteriormente reeditados pelo Instituto Cultural de Macau), e uma vasta colaboração em programas radiofónicos e televisivos. Mas, terá sido principalmente no palco, no desempenho das inúmeras peças, récitas, comédias e representações, que escreveu, encenou e organizou, que José dos Santos Ferreira mais terá contribuído para manter vivo na memória dos seus conterrâneos esse crioulo então já praticamente extinto. Autor de um sem fim de versos em patois para serem cantados com melodias populares ou em voga–uma das formas como animava os inúmeros convívios que organizava–Adé mostrava-se igualmente amante da música e estabelecia a ligação entre a cultura portuguesa e a macaense. Por isso, também verteu para português alguns dos seus originais escritos no dialecto macaense. Em 1979 foi agraciado pelo Presidente da República Portuguesa como grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, enquanto que o Governador de Macau o voltaria a distinguir, em 1984 e 1990, com as Medalha de Mérito Cultural e de Valor, respectivamente. Com o seu desaparecimento, perdeu-se um dos pilares mais marcantes da cultura macaense deste século, não tendo, por isso, a obra e a personalidade de José dos Santos Ferreira deixado de ser relembrada em diversas ocasiões e por múltiplas vias, pelos seus conterrâneos e residentes de Macau, nomeadamente através da tentativa de reanimação das récitas em patois e da reedição da sua Obra Completa, iniciada em 1994 e concluída em 1997, a que devemos acrescentar a estátua, da autoria de Carlos Marreiros, que lhe foi erigida em 1999 no Jardim das Artes de Macau. – Principais Obras. 1. Em Dialecto macaense. Macau Sã Assi, 1968; Qui-Nova, Chencho, 1974; Papia Cristám di Macau. Epítome de Gramática Comparada, 1978; Camões, Grándi na Naçám, 1982; Poéma di Macau,1983; Macau Di Tempo Antigo,1985 (poesia e prosa); Acunga Natal qui nôs já Sonhá, 1988 e Sã Natal, Jesus já nascê, 1989. 2. Em Português e Patois. Doci Papiaçam di Macau, 1990; Poema na Língu Maquista, 1992; História de Maria e Alferes João, versão portuguesa da novel a Estória di Maria co Alféris Juám, 1987, anteriormente publicada, em 1985, na versão original in Macau Di Tempo Antigo e Macau, Jardim Abençoado (poesia e prosa), 1988. 3. Discos. Doci Papiá di Macau, Macau, Tradison, 1997.[M.T.S.] Bibliografia: FERREIRA, José dos Santos, Obras Completas, 6 vols., (Macau, 1994-1997); MARREIROS, Carlos, Adé dos Santos Ferreira – Fotobiografia (Macau, 1994); SENNA, Maria Tereza; BASTO, Jorge, Macau nas Palavras, CD-ROM, (Macau, 1998).

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