Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515

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Trata-se de um significativo conjunto de cerca de seis mil folhas manuscritas, cronologicamente situadas, na sua grande maioria, entre meados do século XVIII e a primeira metade da centúria seguinte. A temática desta documentação diz respeito às relações entre as autoridades portuguesas e chinesas a propósito do território de Macau, versando múltiplos e variados temas, no âmbito dos contactos ofic
No dia 12 de Janeiro de 1754, o Governador sugere ao V. Rei que se remova a cadeia do terreirode St.º Agostinho para junto do Senado e dá a razão: o tronco ou cadeia está num lugar solitário, tendo apenas em frente uma casa com janelas para outra parte e o Convento de St.º Agostinho, que tem apenas uma pequena janela do coro que dá para a cadeia; esta “não tem capacidade, nem fortaleza nem segurança”. Mas junto ao Senado ha uma casa do Estado que se pode transformar em cadeia segura. O V.R. consultou o Senado e este respondeu que havia despesa na remoção; pelo que o V.R., a 30 de Abril de 1776, determinou que se não fizesse a mudança; esta fez-se algum tempo depois, passando o tronco do Largo de St.º Agostinho para junto do Senado. A casa onde antes estava era dos jesuítas; a nova, do Estado. Esta rua ainda hoje se chama do Tronco Velho; a nova cadeia deu o nome à Rua da Cadeia, que em 1937 recebeu o nome de Rua Dr. Soares. A 5 de Setembro de 1909, os presos passaram para a cadeia na Colina de S. Miguel e em 1990 para Coloane.
Domingos Marques faleceu em Macau a 12 de Janeiro de 1787. Ele, nascido em Vila do Mato cerca de 1730, foi da primeira geração da família macaense de Marques em Macau. Era estribeiro-mor do Duque de Aveiro e foi envolvido também no caso dos Távoras. Chegou a Macau cerca de 1760. Foi procurador do Senado em 1768, 1783 e 1784 e exerceu ainda os cargos de escrivão do Leal Senado e de juiz e administrador da Alfândega. Deve ter-se dedicado ao comércio, onde certamente realizou capitais substanciais, pois foi proprietário do Mato do Bom Jesus e deixou à Santa Casa da Misericórdia o importante legado de 1.015 taéis.
A partir de 1730 foram reformuladas as leis chinesas que impediam o comércio com os estrangeiros e os ingleses iniciaram, em Cantão, um período de bem sucedidas trocas comerciais. Contudo, nas últimas décadas do século XVIII, os britânicos encontraram de novo inúmeros obstáculos ao comércio, devido às restrições e imposições que lhes foram colocadas pelas autoridades chinesas. Surgiu, assim, a ideia de se enviar uma grande embaixada à China, a fim de se apresentar pessoalmente ao velho imperador Qianlong 乾隆 as reivindicações da Inglaterra. Em 1792, o embaixador escolhido foi lorde Macartney. A coroa britânica pretendia: 1.º Autorização para comerciar nos portos de Zhoushan 舟山, Ningbo 寧波 e Tianjin 天津, além, naturalmente, de Cantão. 2.º Autorização para instalar um embaixador permanente em Pequim, representante dos interesses britânicos. 3.º Concessão de um espaço de terreno na ilha de Zhoushan 舟山, ou nas proximidades, para entre-posto comercial e residência dos ingleses. 4.º Concessão dos mesmos privilégios em Cantão, ou próximo de Cantão. 5.º Abolição dos direitos alfandegários em Macau e Cantão ou, pelo menos, reduzí-los aos direitos pagos em 1782. 6.º Proibição da exigência do pagamento de impostos, além dos estipulados pelos decretos imperiais. O embaixador Lorde Macartney era um dos mais distintos diplomatas britânicos. Bisneto de escoceses, George Macartney nascera em Dublin, em 1737. Viajara pela Europa culta e civilizada da época. Fora embaixador inglês na corte russa de Catarina II, entre 1764 e 1766, depois governador das Caraíbas e governador de Madrasta, na Índia. Em Setembro de 1792, como “Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do rei da Grã-Bretanha ao Imperador da China”, lorde Macartney partiu para o Império do Meio. A sua comitiva era composta por oitenta e quatro pessoas e enquadrada por cerca de setecentos marinheiros, que viajaram nos navios Lion, Indostan e Jackall. Onze meses depois da partida de Inglaterra, após terem fundeado frente a Macau, os ingleses desembarcaram em Dagu 大沽, o porto de Tianjin 天津, no norte do império chinês, já a curta distância de Pequim. Chegado a Pequim em Agosto de 1793, foi comunicado ao embaixador que devia aprender o koutou 叩頭, a reverência sínica que consistia em bater três vezes com a cabeça no solo ao ser recebido pelo imperador. Os chineses consideravam também que os ingleses chegavam à China como embaixada de um reino tributário que vinha prestar uma espécie de vassalagem ao soberano do Império do Meio. Lorde Macartney insurgiu-se contra este tratamento e declarou que, diante do imperador Qianlong 乾隆, faria apenas uma vénia semelhante ao modo como cumprimentava o seu rei. Falharam as negociações quanto ao protocolo a seguir e não pararam de crescer os mal-entendidos entre os ingleses e as autoridades imperiais. O gelao 閣老 He Shen 和坤, um dos quatro grandes secretários de Estado que desempenhava, na prática, as funções de primeiro-ministro, escolheu para intérpretes da embaixada, pela parte chinesa, os ex-jesuítas José Bernardo de Almeida e André Rodrigues, portugueses, e Louis Poirot, francês. Estes missionários aproveitaram a oportunidade para instilar receios junto dos mandarins, informando, por exemplo, que os britânicos haviam anexado territórios em todas as partes do globo e pretendiam fazer o mesmo na China. Ora, um dos pedidos de lorde Macartney era exactamente a cedência de uma pequena parcela de território chinês para entreposto comercial e residência dos ingleses. Os missionários católicos europeus, com muitos anos de vida na China, receavam também que os ingleses, uma vez instalados em terras sínicas, trouxessem os seus pastores protestantes para difundir a “heresia luterana” no Império do Meio. Lorde Macartney foi diplomaticamente bem recebido pelo imperador Qianlong 乾隆, na estância de Verão em Chengde 承德 (Jehol), já na Manchúria. Mas nenhum dos seus pedidos foi atendido. De regresso a Pequim, o embaixador entregou os presentes que trazia, recebeu as prendas do imperador e foram-lhe dadas ordens para abandonar Pequim no mais curto espaço de tempo, de volta ao seu reino. O imperador Qianlong 乾隆 escreveu uma carta, que lorde Macartney levou para o rei Jorge III, onde se lia: “[…] Tu, ó Rei, que vives para além dos mares, instigado pelo humilde desejo de partilhar os benefícios da nossa civilização, enviaste uma missão que respeitosamente trouxe o teu memorial. […] Se, como afirmas, o teu respeito pela nossa Celeste Dinastia fez nascer em ti o desejo de adquirir a nossa civilização, as nossas praxes e código de leis diferem tão completamente dos teus que, mesmo que o teu enviado fosse capaz de adquirir os rudimentos da nossa civilização, tu não poderias transplantar as nossas maneiras e costumes para o teu solo estrangeiro. […] Se eu ordenei, ó Rei, que se aceitassem os tributos que enviaste, foi apenas em consideração por aquele espírito que te levou a mandá-los de tão longe. […] Reinando sobre o vasto mundo, tenho somente em vista manter uma perfeita governação e cumprir os deveres de Estado. […] As virtudes majestosas da nossa dinastia penetraram em todas as terras debaixo do Céu e os príncipes de todos os reinos têm ofertado os seus valiosos tributos, despachando-os por terra e pelos mares. Eu não atribuo valor algum a esses estranhos e engenhosos objectos e não encontro uso para as manufacturas do teu reino, pois como o teu embaixador pode constatar, nós possuímos tudo”. Era a suprema humilhação para lorde Macartney, para o rei Jorge III e para a Grã- Bretanha, então a mais poderosa nação do globo. Lorde Macartney e a sua comitiva abandonaram a China seguindo, rumo a Macau, pelo interior do império, em navegação fluvial ao longo do Grande Canal e depois pelos rios, para sul, atravessando as províncias de Zhejiang 浙江, Jiangxi 江西 e Guangdong 廣東. Tiveram assim oportunidade de contactar a China real e profunda, e conheceram ampla divulgação na Europa as pinturas da China e dos chineses feitas na altura pelos pintores ingleses que integraram a grande embaixada. Lorde Macartney foi muito bem recebido pelas autoridades portuguesas em Macau, onde permaneceu entre 12 de Janeiro de 1794 e 8 de Março do mesmo ano. Deu, no entanto, ordens para que os militares que o acompanhavam fizessem um levantamento minucioso das muralhas e do armamento da cidade. A Inglaterra não desistia da intenção de possuir um estabelecimemto em território chinês e cobiçava Macau, como as posteriores tentativas de ocupação, ambas falhadas, em 1802 e 1808, haveriam de comprovar. A fracassada embaixada britânica foi motivo de amplo debate e objecto de estudo atento na Grã-Bretanha. Porque se comportavam os chineses de modo tão soberbo e arrogante, praticamente insultando o todo-poderoso rei inglês? Que país era esse que se julgava o centro do mundo e o único pólo civilizado do universo? A Inglaterra não podia suportar a vexação feita à sua embaixada e ao seu rei, mas teve de esperar até à Guerra do Ópio (1839-1842) para humilhar finalmente a China, derrotando-a militarmente e obtendo o território de Hong Kong. Lorde Macartney faleceu em Inglaterra, a 31 de Março de 1806. No último parágrafo do seu Diário deixou este avisado conselho: “Nada mais enganador do que julgarmos a China pelos nossos critérios europeus”. [A.G.A.] Bibliografia: ABREU, António Graça de, “O Insucesso de Macartney e os Padres Portugueses”, in Macau, II série, n.° 67, (Macau, 1997); PEYREFITTE, Alain, O Império Imóvel, (Lisboa, 1995); STAUNTON, George, An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China, 3 vols., (Londres, 1797).
No dia 12 de Janeiro de 1818 faleceu Gonçalo Pereira da Silveira. Nasceu a 19 de Outubro de 1762 na Sé, filho de Joaquim José da Silveira, de naturalidade em Lisboa, Comandante da Marinha Real de Goa, e de Maria Pereira de Miranda e Sousa. Gonçali Pereira da Silveira possuia uma casa no beco junto à Rua Central, que ficou conhecido por 'Beco do Gonçalo'. Nessa casa funcionou, ao que parece, a tipografia da East India Company. Casou na Sé a 10 de Janeiro de 1796 com D. Ana Joaquina de Araújo e Rosa.
Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) significa em tradução literal Lago do Espelho, designação que poderá estar ligada àreflexão da luz sobre as águas da Praia Grande. Localiza-se em pleno coração de Macau e foi fundado no século XIX, com carácter privado, pertencendo a uma associação de beneficência. A pedra inaugural contém uma inscrição que refere a data de 28 de Outubro de 1871 como tendo sido o início da construção da instituição e ter sido o terreno registado na Conservatória por Sam Wong (Shen Wang 沈旺), Chou Iau (Cao You 曹有), Tak Fung (De Feng 德豐) e Wong Lok (Wang Lu 王祿). O Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) foi, desde início, mais do que um hospital, porque se propunha socorrer doentes, tanto pela hospitalização, como através das consultas. Nos seus propósitos incluía ainda a existência da escola médica e de enfermagem e a atribuição de subsídios que ajudassem a combater epidemias, cataclismos, fomes que tivessem lugar em Macau ou em outros lugares onde houvesse população chinesa. Um outro aspecto que também contemplava era responder pelos ritos culturais e cerimónias fúnebres, bem como representar o Grémio dos comerciantes que embora não recebessem qualquer remuneração por serem eleitos membros da Comissão da Associação, tal constituía uma prova de distinção social. Em 1874, formou-se uma Comissão Administrativa composta por dezasseis vogais, quatro com funções directivas e doze com atribuições auxiliares. Em 1880, foi oferecido ao hospital o valor de 69.305, 80 patacas para construir o muro, aplanar o terreno, montar a farmácia, casa de alienados, casa mortuária, cozinha, retretes, etc. Durante a década de oitenta,o hospital socorreu diversas vítimas de calamidades naturais ou até de naufrágio, tratando feridos e enviando apoio para os sinistrados. Existe o registo das receitas e despesas entre 1871 e 1880. O edifício do hospital começou por ser uma construção em estilo chinês, com o seu hall servindo de templo e de sala de comemorações e tendo ao lado o espaço de consultas que eram efectuadas por mestres chinas. Segundo Luís Gonzaga Gomes, o Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, que esteve em Macau no século XIX a caminho de Pequim, foi a primeira pessoa a falar do hospital chinês existente em Macau. O referido político conheceu as instalações anteriores àconstrução do edifício que ainda hoje existe na cidade. Nas suas memórias escritas em 1895 e publicadas com o título de Jornadas pelo Mundo pela Companhia Portuguesa, editadas no Porto em 1916, referia que o hospital era sustentado por chineses ricos e tinha o aspecto físico de um templo. Existia uma parte com uma grande mesa e pelas paredes havia sentenças esculpidas em mármore. Nessa mesma sala encontrava-se uma estátua de Buda. Entre esta ala e o hospital propriamente dito existia um jardim. Dos dois lados de compridos corredores situavam-se os quartos. Era sobretudo um hospital para gente pobre, pois mesmo os chineses católicos, mais ligados à comunidade portuguesa, tinham muita relutância a serem tratados por europeus. Ao longo do tempo o prédio foi sofrendo sucessivas obras de reconstrução e beneficiação. Assim, mais tarde, o hospital veio a transformar-se num edifício em estilo europeu dispondo de várias enfermarias. A prática de medicina ali levada a cabo continuava a ser tipicamente chinesa, com os mestres chinas sem grandes habilitações, aspecto muito criticado pelos médicos portugueses que trabalhavam no Hospital de S. Rafael e directamente ligados à Administração Portuguesa. Do corpo hospitalar do Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) também faziam parte um médico habilitado pela Escola Americana de Cantão e pessoal de enfermagem igualmente formado por essa escola. No século XIX, era o hospital de maior movimento de Macau e onde a taxa de mortalidade era a mais significativa. Tendo sido proibida, pelo Regulamento dos Serviços de Saúde de 1896, a hospitalização de doentes infecto-contagiosos nos hospitais gerais, passou a ter uma barraca de isolamento na ilha Lapa, onde os chineses eram tratados pelos seus mestres. Por incumbência oficial o delegado de Saúde da cidade, um médico português, tinha a obrigação de verificar os óbitos ocorridos no hospital chinês. Assim, todas as manhãs faziam a verificação no necrotério, onde um funcionário, com uma lista escrita em língua sínica ia traduzindo as causas da morte. O médico registava-os e depois passava as certidões de óbito. O diagnóstico revela-se sempre obscuro, pois o abismo entre as duas culturas era significativo, como ainda hoje acontece. Em 1883, era relatado que o número de óbitos no Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) era superior ao do seu congénere Conde de S. Januário. O subscritor do artigo, Dr. Lúcio da Silva, referia que tal era devido às fracas condições de higiene. No entanto, a mesma instituição tinha acções de grande oportunidade junto da população como era a campanha de vacinação de crianças realizada na mesma época em que o artigo foi redigido. Apesar de toda a obra de solidariedade levada a cabo, a prática médica existente no hospital continuava a gerar controvérsia, muitas vezes alimentada pelos órgãos de informação. Foi o caso de um artigo publicado pelo Echo Macaense, em 19 de Dezembro de 1893, onde informava haver muitas críticas quanto à administração do hospital, nomeadamente sobre o que deveria ser essa instituição para a população de Macau de menores recursos. No artigo salientava-se que os médicos da medicina tradicional chinesa que ali trabalhavam tinham fracas habilitações académicas, sugerindo que alguns doentes, desde que tivessem a aprovação da Administração podiam ficar, mesmo sem ser indigentes. O mesmo artigo referia que o aparecimento da Associação de BeneficênciaTung Sin Tong (Tongshan Tang 同善堂) tinha acontecido devido ao falhanço ou desvirtuamento dos objectivos inicialmente propostos pela Comissão dirigente do Kiang Wu (Jinghu 鏡湖). Sobre a falta de higiene e a elevada taxa de mortalidade o mesmo disse, anos mais tarde, Manuel Leite Machado, um médico militar português que, em 1912, foi destacado para prestar serviço em Macau e em Timor. O gráfico apresentado sobre os doentes que entraram, saíram ou faleceram no ano de 1910 indicava a percentagem de 58,2% de óbitos. Tal era de facto muito alta, mesmo para os padrões da época, servindo de comparação o mesmo tipo de estudo efectuado no Hospital do Estado S. Rafael. A constatação do índice de óbitos já tinha sido alvo de análise em 1897 quando o Regulamento dos Serviços de Saúde pretendeu intervir nesses serviços, proibindo que ali fossem tratados europeus e seus descendentes e decidido que o chefe dos Serviços de Saúde pudesse interrogar e observar doentes, sem haver intervenção directa no seu tratamento. Em 1905, o hospital era descrito como estando muito limpo e com uma farmácia bem apetrechada que continha medicamentos chineses e europeus. Sensivelmente nessa época apareceram duas pessoas em Macau, ligadas à Medicina, que vieram alterar o curso dos acontecimentos no Hospital. Uma delas foi o introdutor da medicina ocidental no KiangWu (Jinghu 鏡湖), Dr. Sun Yat-Sen (Sun Yixian 孫逸仙), fundador da República Chinesa e o outro foi o clínico português, Dr. José Caetano Soares, que pelo seu prestígio conseguiu montar uma maternidade no Hospital S. Rafael e fez com que muitos chineses recorressem a essa instituição, perdendo gradualmente o receio de serem tratados por clínicos e Medicina europeia. Sobre o primeiro não existem muitas informações sobre a sua permanência em Macau. No entanto, esteve a viver na cidade após a conclusão do curso de Medicina e Cirurgia no Hong Kong College of Medicine. Além de trabalhar no hospital, Sun Yat-Sen (Sun Yixian 孫逸仙) era activo redactor do suplemento chinês do Echo Macaense. Em 1892, solicitou ao hospital um empréstimo de 1.440 taeis para montar uma farmácia sino-europeia. Contraiu um outro empréstimo no montante de 1728 taéis em 1896, ficando Ng Chit Mei (Wu Jiewei吳節薇) como seu fiador. O referido médico foi pessoalmente ao hospital em 1919 para saldar a dívida definitivamente. Durante os anos seguintes continuou o hospital na sua linha de beneficência social, salientando-se a título de exemplo, a fome em Guangdong廣東 em 1896 ou a fundação de cinco escolas gratuitas em Macau, nomeadamente: San Po Tau (Xinbutou 新埠頭), Ma Chou Tei (Maicaodi 賣草地), Sei Hang Mei (Shuikengwei 水坑尾), San Kiu (Xinqiao 新橋) e Sin Seng Kai (Xinshengjie 新勝街) ou, ainda, em 1900, quando grassou grande fome em Pequim. Em todas as situações referidas a Associação de Beneficência do Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) actuou de forma notável. Em 1910, o chefe dos Serviços de Saúde, Dr. Expectação de Almeida, escrevia no seu relatório que o Kiang Wu (Jinghu 鏡湖) representava uma das mais afamadas instituições de beneficência da comunidade chinesa. Como qualquer hospedaria, o hospital limitava-se a enviar à Procuradoria Administrativa dos Negócios Sínicos a relação do seu movimento periódico. Em 1920, foi inaugurado o novo edifício pelo Governador Comandante Henrique Correia da Silva. Já na época eram importantes os recursos que dispunha, sensivelmente entre 25.000 a 30.000 patacas anuais, para além do subsídio do Governo e do Leal Senado. O novo edifício foi inaugurado a 12 de Janeiro de 1920. As receitas provinham dos prédios da Associação, do subsídio anual da Assistência Pública, do rendimento do hospital e farmácia, de bazares, rifas e representações teatrais. Foi igualmente nessa época que o hospital elaborou um novo sistema de pagamento para as várias classes de doentes. Em 1933, transferiu a casa mortuária para um local em frente ao Canídromo. Fundou uma Associação Funerária, contribuindo os seus membros mensalmente para o seu caixão e enterro. Ainda nesse ano fundou a Sociedade de Socorro aos Feridos do Hospital, cujo Regulamento foi aprovado por Portaria n.º 1116, publicada no Boletim Oficial n.º 17 de 1933. Em 1942, foi elaborado um novo Regulamento para a sua Associação, aprovado pelo Governo, ficando registado com o nome de Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu (Jinghu Yiyuan 鏡湖醫院). De acordo com esse texto o presidente era eleito por um ano e o trabalho ficou dividido em oito secções: Secretaria Geral, Farmácia, Finanças, Consultas, Obras, Educação, Auxílio Social, e Rendas de Bens imóveis. A Comissão Administrativa passou a ser composta de vinte e sete membros: doze formavam a direcção propriamente dita e quinze a direcção permanente de serviço. Dois anos depois, foi novamente reorganizada tornando-se mais eficiente. Em 1947, a Associação foi considerada de utilidade pública pela portaria governamental n.º 4321. Os grandes objectivos dela continuavam a ser prestar assistência a doentes pobres, assistir às parturientes na maternidade, manter escolas gratuitas para gente carenciada, bem como uma escola de enfermagem e obstetrícia, manter um necrotério e uma agência funerária, dar sepultura aos pobres e praticar actos de assistência social sempre que fosse necessário. Em 1930, o Presidente da Direcção do Hospital Kiang Wu (Jinghu Yiyuan 鏡湖醫院) solicitou e obteve a concessão de um terreno, na Estrada Coelho do Amaral, para ser construído um necrotério. A escola de enfermagem possibilitou que jovens tirassem o curso de parteiras com a duração de um ano e, actualmente, a referida escola possui uma Biblioteca cujo acervo se destaca no panorama clínico de Macau, possuindo cerca de 4000 livros, a maioria em chinês e os restantes em inglês, versando diversos assuntos como Enfermagem, Medicina, Ética, Psicologia, Sociologia, Gestão, Educação, Dicionários,etc.. Recebem periódicos da China, Taiwan, Estados Unidos e Inglaterra. A parte académica do hospital actualmente encontra-se ligada à Universidade de Jinan (Jinan Daxue 暨南大學)(China). O protector do hospital (Jinghu Yiyuan 鏡湖醫院) é o célebre cirurgião Hua-Tó (Huatuo 華陀), edificado após a sua morte e adorado em vários altares de templos em Macau. Na esfera privada a Associação de Beneficência do Hospital de Kiang Wu (Jinghu Yiyuan 鏡湖醫院) juntamente com outras instituições como a Diocese de Macau, a STDM e a Fundação Oriente constituem o leque dos maiores titulares de terrenos do território. [A.N.M.]Bibliografia: CARVALHO, João, “Notas para a História da Medicina em Macau”, in Revista Macau, 2.ª série, n.° 85, (Macau, Maio 1999), pp. 24-29; COSTA, P.J. Peregrino da, Medicina Portuguesa no Extremo-Oriente, Sião, Molucas, Japão, Cochinchina, Pequim e Macau, Séculos XVI a XX, CCCM-CID, cota MCAH/LR/0321/H.G6; COUTINHO, Paulo, “Macau aos Quarteirões”, in Revista Macau, 2.ª série, n.° 69, (Macau, Jan. 98), pp. 36-51; GOMES, Luís Gonzaga, Achegas para a História do Hospital Kiang Wu, CCCM-CID, cota LGG.MNL.RI.LGG 15-cx 1; TEIXEIRA, Padre Manuel, A Medicina em Macau, vols. I e II, (Macau, 1974).
No dia 12 de Janeiro de 1898, o Processo n.º 363 - Série P - da Adm. Civil (A.H.M.) contém o pedido feito por Ornar Cassam, na qualidade de gestor de negócios de seu pai, Cassam Moosa, para que lhe fosse paga, pela consignação em depósito que o ex-Juiz de Direito desta Comarca, Dr. Álvaro Maria de Fornelos, fizera na Fazenda, a quantia de $514,61 que o mesmo Juiz lhe devia. As poucas notícias relativas a mouros, levam-nos a incluir esta, que prova a presença de, pelo menos, duas gerações.
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