João Eduardo Scarnichia, filho de António Vicente Scarnichia e de Maria Leocádia Scarnichia, nasceu em Faro, em 1832. Tendo assentado praça na Armada com cerca de treze anos, frequentou a Escola Politécnica e embarcou como guarda-marinha, no vapor Mindelo. Scarnichia não escapou às conturbações dos tempos que opunham Cartistas e Setembristas e foi deportado em 1846, regressando, porém, em Agosto desse mesmo ano, à guarnição do Mindelo. Em 1848 concluíu o curso da Escola Naval, tornando-se então guarda-marinha efectivo, sendo agraciado nesse mesmo ano com o grau de cavaleiro da Ordem Militar de Torre e Espada. Prosseguiu a sua carreira militar em diversas embarcações e, em meados de 1853, sendo 2.º tenente e integrando a guarnição da corveta D. João I, sob o comando do capitão-de-fragata, Carlos Craveiro Lopes (1807-1865), zarpou para Macau, onde aportou em 1854. Passados dois anos, em 15 de Julho de 1856, casou na Sé de Macau com Maria Mikol Goulart (1838-1893), pertencente a uma família de armadores e capitães de navios açoriana radicada em Macau. Dela teve três filhos, todos eles naturais do território, onde Scarnichia acabaria por permanecer durante 24 anos. O primogénito, António Vicente Goulart Scharnichia (1858-?) haveria de seguir igualmente a carreira militar, sendo alferes da guarnição de Moçambique e oficial às ordens do governador de Macau (1883-1886), Tomás de Sousa Rosa (1844-1918). Entre 1854 e 1861, João Eduardo Scarnichia assumiu por diversas vezes o comando da lorcha Amazona – embarcação que, a partir de 1862, viria a desempenhar um papel de relevo na sinalização das tempestades tropicais. Em 1854-1855, distinguiu-se em acções militares conjuntas luso-britânicas contra a pirataria que assolava a região, o que lhe mereceu o louvor do comandante da esquadra britânica Contra-Almirante James Stirling e a progressão na carreira militar, com uma promoção por distinção a 1.º tenente, em 3 de Fevereiro de 1855. Em 1861, foi nomeado capitão do Porto de Macau, lugar que ocupou, embora com algumas interrupções de permeio, até 12 de Agosto de 1876, sendo igualmente, a partir de 3 de Setembro de 1868, comandante da Polícia Marítima de Macau. Enquanto primeiro detentor deste cargo foi, também, o responsável pela elaboração do respectivo regulamento, após a sua criação pelo governador (1868-1872), Almirante António Sérgio de Sousa (1809-1878). Durante o mandato de Scarnichia à frente da capitania do porto de Macau começou a funcionar, em 24 de Setembro de 1865, o farol instalado na fortaleza de Nossa Senhora da Guia, construído sob a direcção do próprio governador (1863-1866) e oficial de engenharia, José Rodrigues Coelho do Amaral (1808-1878), cabendo ao macaense Carlos Vicente da Rocha (1810-1883) a autoria do maquinismo, desenvolvido à semelhança de um candeeiro a petróleo. Em Macau, Scarnichia desempenhou outras funções de responsabilidade, tais como as de secretário-geral interino e encarregado do Governo, entre 13 e 21 de Outubro de 1876, durante a ausência do seu titular (1874-1876), em missão oficial a Cantão, à época, José Maria Lobo d’Ávila (1817- 1889). Scarnichia foi, ainda, vogal do Conselho do Governo e, interinamente, em 1873, encarregado da emigração chinesa. Os serviços por ele prestados aquando da negociação das pautas alfandegárias de Macau com o vice-rei de Cantão mereceram-lhe novo reconhecimento público, tendo sido louvado por portaria do Governo de 28 de Outubro de 1875 e, de seguida, promovido a Capitão-de-Mar-e-Guerra por decreto de 16 de Agosto de 1876. Scarnichia regressou a Portugal em 1877 para servir em comissão compatível com a sua graduação, havendo ainda desenvolvido em Macau alguma actividade nos campos da educação e da cultura. Assim, integrou a comissão nomeada pelo governador (1866-1868), José Maria da Ponte e Horta (1824-1892), nos fins de 1866, para elaborar um projecto de regulamento da Nova Escola Macaense, e ocupou, em 1873, o cargo de vice-tesoureiro da direcção do recém-restaurado Teatro D. Pedro V. Sendo, pela primeira vez, eleito deputado pelo círculo de Macau, em 13 de Outubro de 1878, Scarnichia integrou o Parlamento português, pelo mesmo círculo, em todas as subsequentes legislaturas até à sua morte, provocada por uma congestão cerebral, em 26 de Fevereiro de 1888, detendo à altura o posto de Contra- -Almirante. Está praticamente por estudar a actividade parlamentar e a acção desenvolvida na metrópole por João Eduardo Scarnichia em prol de Macau, nomeadamente as diligências em defesa das reformas administrativa, financeira e fiscal a que o Senado de Macau ambicionava. Sabe-se que, em Maio de 1880, iniciou o processo tendente à aquisição do Jardim Luís de Camões pelo Estado português, a qual só se viria a concretizar em 1885; que se empenhou no processo de remoção das lajes do Cemitério de S. Paulo, e que, em 1882, desempenhava, em Lisboa, o papel de procurador da Confraria do Bom Jesus dos Passos de Macau, para além de ter representado o território em eventos especiais, tal como aconteceu por ocasião das comemorações do tricentenário de Camões (1880) e na inauguração da estátua dos Restauradores, em 28 de Abril de 1886. João Eduardo Scarnichia granjeou, para além das já mencionadas e de algumas medalhas militares, diversas distinções nacionais e estrangeiras, tais como a comendador da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1870) e de Cavaleiro da Ordem de S. Bento de Avis (1875), bem como a de comendador da Real Ordem do Camboja e de cavaleiro da ordem da Coroa de Itália. [M.T.S.]
Bibliografia: FORJAZ, Jorge, Famílias Macaenses, vol. II, (Macau, 1996), p.108; SILVA, Beatriz Basto da, Cronologia da História de Macau, vol. 3, (Macau, 1995); TEIXEIRA, Padre Manuel, Marinheiros Ilustres Relacionados com Macau, (Macau, 1988), pp. 91-102; TEIXEIRA, Padre Manuel, Cem Anos de Vida do Quartel dos Mouros, 1874-1974, (Macau, 1974), pp. 15-18; TEIXEIRA, Padre Manuel, Vultos Marcantes em Macau, (Macau, 1982), pp. 137-140 (na qual repete, com alguns erros e contradições, o que diz nas obras supra-mencionadas); TEIXEIRA, Padre Manuel, Toponímia de Macau, 2.ª ed., vol. 1, (Macau, 1997), pp. 324, 379, 381 e 386; TEIXEIRA, Padre Manuel, Os Militares em Macau, 2.ª ed., (Macau, 1984), pp. 333–334.

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Data de atualização: 2022/11/03