Nascido em Portugal, António Gonçalves Guerra já se encontrava fixado no enclave macaense nos finais da década de 1740, encetando uma carreira de feitor comercial que o levaria a trabalhar para os grandes comerciantes e instituições da burguesia mercantil local. Reconhece-se a sua colaboração junto dos grandes mercadores de Macau, Luís Coelho, Manuel Pereira da Fonseca e Simão Vicente Rosa para, depois, desde a década de 1760, se fixar demoradamente na administração económica das actividades comerciais de João Ribeiro Guimarães, um dos três empresários mais ricos e poderosos da segunda metade do século XVIII. Privilegiado com a sua posição de reinol e pelo convívio com a elitária grande burguesia comercial da cidade, Guerra vai percorrendo de forma ascendente os degraus dos dois pilares do regime político e social da comunidade cristã de Macau, o Leal Senado e a Santa Casa da Misericórdia. Assim, documenta-se a eleição de António Guerra para a vereação municipal em 1767, 1770, 1778 e 1780. Irmão da Misericórdia desde, pelo menos, 1765, chega a escrivão em 1768, cargo que manteria ciclicamente até 1779. A sua acção na escrivania da Santa Casa mostra um administrador competente e zeloso, perfeitamente qualificado na gestão do generoso tesouro financeiro e urbano da irmandade. Deve-lhe a Casa a introdução documentada de uma contabilidade de entrada dupla, a reforma da vedaria confraternal, a renovação das balanças e do sistema de pesos e medidas da Casa, arrolando-se a partir destas reformas um prolongado sistema de conversão do tael de prata, em peso e moeda, ao câmbio das principais moedas e pesos de circulação europeia no Extremo Oriente, especialmente a libra inglesa e o peso espanhol distribuído a partir das Filipinas. António Gonçalves Guerra lança-se também nas frenéticas práticas de pedir emprestado para investir nos tratos mercantis do enclave, um comportamento generalizado entre o meio mercantil local, mas controlado pelo peso dominante dos capitais da Misericórdia. Descobre-se António Guerra a pedir de empréstimo do Leal Senado em 1767 e 1769 duas vezes 2000 taéis a ganhos da terra. Em 1766, Guerra consegue arrecadar por empréstimo da Santa Casa da Misericórdia 800 taéis apostados nos tratos de um dos barcos do seu patrão, João Ribeiro Guimarães, com destino ao Ceilão. No ano seguinte, em 1767, Guerra pede emprestados mais 800 taéis à Santa Casa para investir na viagem do Nossa Senhora da Glória e S. Jorge, outra embarcação da propriedade de João Ribeiro Guimarães, desta vez com destino a Madrasta. Estes investimentos não parece terem sido totalmente bem sucedidos já que o nosso feitor transformado em investidor aparece em 1769 devedor de 921.276 taéis à fazenda real. Seja como for, os empréstimos solicitados por Guerra à Misericórdia para investimentos em viagens comerciais sucedem-se com regularidade anual, ao mesmo tempo que o nosso reinol vai subindo os degraus da elitista hierarquia da Santa Casa de Macau. Coroando mesmo a sua competente actividade de escrivania e reforma da administração financeira da Misericórdia, António Gonçalves Guerra consegue ser eleito, em 1780, provedor. Neste mesmo ano, como era boa prática,o novo senhor provedor pede e autoriza a si próprio emprestados pela sua Santa casa 500 taéis jogados na viagem para Timor do S. António e Almas Santas. O investimento correu mal e António Guerra fo.i incapaz de repor o capital acrescido dos habituais juros de 20%. Marcado talvez socialmente por essa sua ascensão social, vindo verdadeiramente de baixo, do serviço aos grandes comerciantes locais, Guerra não conseguiria completar o seu ano de mandato como provedor da Santa Casa. Acusado de investimentos ruinosos, de acumular o cargo com o de vereador municipal- o que era mais do que habitual -, António Gonçalves Guerra acaba substituído ainda no final de 1780 na provedoria da Misericórdia pelo mais do que poderoso António José Costa que, de imediato,como era de bom costume, assinou vários empréstimos de muiros milhares de taéis da sua Santa Casa para os seus próprios investimentos nos seus próprios navios e intercâmbios comerciais. [I.C.S.]
Bibliografia: PIRES, Benjamim Videira, A Vida Marítima de Macau no Século XVIII. , (Macau, 1993); SOUSA, Ivo Carneiro de, A Outra Metade do Céu de Macau. Escravatura~ Orfandade Femininas, Mercado Matrimonial e Elites Mercantis (Séculos XVI-XVIII) , no prelo, (Macau, 2006); VALE, A. M. Martins do, Os Portugueses em Macau (1750-1800) , (Macau, 1997).

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Data de atualização: 2023/06/14