Luís Gonzaga Gomes, Inho Gomes, como era mais intimamente conhecido, nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907, sendo filho dos professores primários Joaquim Francisco Xavier Gomes e Sara Carolina da Encarnação. Faleceu solteiro na mesma cidade em 20 de Março de 1976. Estudou no Liceu de Macau, onde privou de perto com Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), seu condiscípulo, que haveria de se destacar nas Letras. Foi aluno de Camilo de Almeida Pessanha (1867-1926), do futuro cardeal D. José da Costa Nunes (1880-1976) e de Manuel da Silva Mendes (1876-1931). A sua dedicação a este último, por quem nutria grande estima e admiração, levaram-no a iniciar em 1949 a compilação dos artigos por ele publicados na imprensa de Macau. Deu-a à estampa em quatro volumes da Colecção Notícias de Macau, o primeiro dos quais publicado nesse ano e os restantes em 1963 e 1964. Familiarizado desde cedo com a língua chinesa,e após ter concluído os estudos secundários, Gonzaga Gomes iniciou a sua vida profissional na Repartição Técnica do Expediente Sínico depressa chegando a intérprete de 1.a classe. Foi ainda professor e director da Escola Central, depois Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva, inspector substituto do Ensino Primário e Conservador do Museu Luís de Camões, que, ao seu dinamismo e labor ficou a dever a existência real em 1960, não obstante haver sido criado nos inícios do Século XX. Foi ela efémera contudo, já que o Museu haveria de encerrar após a morte de Luís Gonzaga Gomes, assim permanecendo até 1980. Reaberto por menos de uma década voltou a fechar em 1989. Pondo termo a uma existência atribulada, o respectivo espólio passou a integrar o acervo do Museu de Arte de Macau, inaugurado em 1999, onde finalmente se encontra ao dispôr do público. Gonzaga Gomes dirigiu também a Emissora de Radiodifusão de Macau, serviço criado em 17 de Fevereiro de 1962, depois das experiências pioneiras da CQN-Macau (1933) e da Rádio Vilaverde (1952). Homem de recortado perfil cívico, foi vice-presidente do Leal Senado e, entre 1962 e 1967, director da Biblioteca Pública Municipal, situada no edifício da mesma câmara de Macau, aqual integra actualmente a Biblioteca Central de Macau. Luís Gonzaga Gomes distinguiu-se sobretudo como ensaísta e publicista, actividades a que se dedicou de forma contínua e abnegada, tanto através da escrita e da conferência como da rádio. Tratou e divulgou os mais diversos temas: históricos, antropológicos, etnográficos, filosóficos, bibliográfico-documentais, artísticos, musicais, literários, em Português, Chinês e Inglês, tendo-nos legado mais de trinta livros e largas dezenas de artigos que se encontram disseminados pelas cerca de duas dezenas de periódicos em que colaborou com alguma regularidade. Quase toda essa produção foi reunida nas décadas de 50 e 60 do século passado num conjunto de modestos livros da Colecção Notícias de Macau, editada pelo jornal com idêntico título de que Gonzaga Gomes era secretário. De há muito esgotados, foram alguns desses volumes recentemente reeditados pela Fundação Macau. Para a prossecução de tão profícua actividade de divulgação revelaram-se de extrema utilidade o domínio e os conhecimentos que Luís Gonzaga Gomes possuía da língua chinesa, a qual leccionou no Liceu e nos Correios, Telégrafos e Telefones de Macau, onde também ensinava Inglês. Dessa sua familiariedade com a língua e a cultura chinesas, e apesar de revelar algumas limitações, resultou um invulgar esforço de aproximação entre os universos culturais chinês e português. Assim, Luís Gonzaga Gomes traduziu para Chinês em 1953, de parceria com Tcheong Iek Tchi, Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo -Adaptação de João de Barros, língua na qual também publicou, em 1955, um resumo da História de Portugal. Do Chinês para Português verteu alguns clássicos e o primeiro - e até há bem pouco tempo único - relato histórico chinês sobre Macau, onde se descreve a cidade, a sua administração e os usos e costumes dos estrangeiros nela residentes, publicado em 1751 pelos funcionários imperiais destacados para a região Ying Guangren 印光任 (?-?) e Zhang Rulin 張汝霖 (1709-1769). Referimo-nos à conhecida Aomen Jilue 澳門記略, de que se aguarda para breve uma edição crítica sob a chancela do Instituto Cultural, de Macau. Em 1941 , 1942 e 1954 compilou vocabulários de Cantonense, Portuguêse Inglês, respectivamente. Mas a grande obra de referência de Luís Gonzaga Gomes é a sua Bibliografia Macaense, de consulta indispensável para o estudo da História, da cultura e dos mais diversos aspectos da vida de Macau. Publicada em 1973 com o título de 'Publicações sobre Macau e as que nela foram Impressas' no Boletim do Instituto Luís de Camões foi posteriormente reunida em livro e, entre 1988 e 1996, continuada e desenvolvida no Boletim Bibliográfico de Macau, seguindo-se-lhe a edição trilingue (Chinês, Português e Inglês), do Catálogo das Publicações Editada sem Macau (2000 e 2001 ), ambas estas publicações da responsabilidade da Biblioteca Central de Macau. Entre 1964 e 1976 Luís Gonzaga Gomes dirigiu a III.a Série da prestigiada colectânea documental Arquivos de Macau, e, enquanto conservador do Museu Luís de Camões, o Boletim do Instituto Luís de Camões, orgão do Instituto com o mesmo nome, ao qual também presidia. Foi ainda chefe de redacção da revista Renascimento, administrador do jornal com idêntica designação em meados da década de 40 do Século XX, secretário-geral do diário Notícias de Macau e o grande impulsionador da revista Mosaico. Correspondente da Agência Noticiosa Nacional (ANI), colaborou,entre outros, com os periódicos A Voz Correio do Minho, Diário de Coimbra, Novidades, O Primeiro de Janeiro, Notícias de Lourenço Marques, Diário de Luanda, Correio dos Açores, e revistas como o Boletim da Agência Geral das Colónias, para além do jornal chinês Fok Heng Pou. Não obstante o seu autodidactismo, Gonzaga Gomes foi uma figura omipresente no panorama cultural de Macau até à década de 70 do Século XX. Foi a alma do Círculo Cultural de Macau, surgido nos inícios da década de 50 e integrou, entre diversas outras, a comissão para a defesa e conservação do património criada em 1960, tendo ainda, a partir de 7 de Março de 1966, sido vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, do Ministério do Ultramar. Melómano apaixonado, acompanhou desde o início, e secretariou, o Círculo de Cultura Musical, fundado em 1952 por Pedro José Lobo (1892-1965), seu presidente até à morre. Gonzaga Gomes dirigiu ainda o Grupo de Amadores de Teatro e Música, de que foi 2.o violino e tesoureiro, tendo igualmente exercido as funções de secretário da Comissão Instaladora da Academia de Música de Macau. Dedicando-se ao canto, nho Gomes aprendeu a tocar com a sua irmã Maria Margarida d'Alacqoque Gomes (1902-1996), que estudara piano e canto no Trinity College de Londres e ballet clássico nos Estados Unidos da América, sendo autora de um dos escassos livros existentes sobre a culinária de Macau, intitulado A Cozinha Macaense (Macau, Imprensa Nacional, 1984). Gonzaga Gomes aperfeiçou depois os seus conhecimentos de Teoria Musical, Solfejo e História da Música por meio de cursos de correspondência ministrados pela Escola Universal de Paris. Dominando outros idiomas como o Inglês, o Francês, o Castelhano e o Italiano, contactou e manteve correspondência com eruditos, bibliotecários, escritores e historiadores de todo o Mundo tendo feito com que muitos deles visitassem Macau a fim de proferirem conferências e participarem em acções de cariz cultural por ele organizadas. Da mesma forma fez deslocar a Macau grandes nomes do panorama artístico mundial. Pertencia ainda à Sociedade dos Amigos da Comunidade Luso-Brasileira. Desportista amador, praticante do futebole do ténis, Luís Gonzaga Gomes secretariou a Associação Desportiva Macaense e a União Desportiva Macaense, tendo também presidido aos destinos do Rotary Club de Macau. A sua prolixa, extensa e empenhada actividade cultural foi reconhecida pelo governo português que o agraciou com a medalha do Infante D. Henrique, tendo recebido igualmente o grau de cavaleiro da Ordem das Palmas de França e, postumamente, a Medalha de Valor do Território de Macau, para além de diversos louvores. Um dos nomes mais prestigiados da cultura macaense do Século XX, mas praticamente desconhecido fora de portas, nomeadamente em Portugal onde não aparece referenciado em qualquer enciclopédia, a sua memória continua viva na comunidade local que, entre outras homenagens, lhe colocou um busto numa das salas do Museu Luís de Camões em 1977 e lhe erigiu, em 20 de Março de 1984, na passagem do 8.o aniversário da sua morte, um outro no Jardim de S. Francisco, sendo ambos da auroria do escultor Oseo Acconci (1905-1988). Este último foi transferido nos inícios de 2002 para o Jardim das Artes de Macau. Em 1986, no âmbito de um mais vasto programa que marcou o 10. o aniversário da morte do autor, o Instituto Cultural de Macau organizou, em Maio, a exposição Luís Gonzaga Gomes. Uma Vida e, em 6 de Setembro de 1986, o seu nome foi dado à escola secundária que integrava o então Complexo Escolar de Macau, instituíndo-se na ocasião um prémio escolar com o seu nome. Em 1988 foi criado o Prémio Literário Luís Gonzaga Gomes destinado a galardoar obras literárias em línguas portuguesa ou chinesa que tivessem Macau, ou a identidade cultural macaense, por tema. O Prémio foi lançado em Macau, em Portugal e na República Popular da China, mas teve apenas uma edição. Em 27 de Março de 1991 a Revista de Cultura promoveu uma tertúlia local sob a sua égide, o Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, tendo a sessão evocativa do seu patrono tido lugar em 25 de Junho de 1991. Amante e conhecedor da arte chinesa, uma boa parte da sua colecção, considerada à época a melhor de Macau, foi vendida por Luís Gonzaga Gomes a um estrangeiro. O valioso espólio artístico que compunha o recheio da sua moradia em Macau- móveis chineses, loiças, vidraria e quadros – foi doado pela sua irmã, Maria Margarida, à Universidade Católica de Lisboa, onde se encontra, na Reitoria, em espaço designdo Galeria Macau, bem como um fundo, a ser gerido pela mesma Universidade, destinado a subsidiar a formação de estudantes carenciados. Por seu turno, a valiosa biblioteca desta família de melómanos com hábitos culturais e literários enraizados constituída por milhares de volumes, neles se incluíndo mais de seiscentas obras chinesas, algumas das quais raras -, foi vendida após a morte de Luís Gonzaga Gomes ao Governo de Macau e depositada no Arquivo Histórico da cidade como biblioteca de apoio aos investigadores, ainda hoje de valor inestimável. Nele se pode ainda encontrar, se não a totalidade, pelo menos uma boa parte do espólio fotográfico que pertenceu a Luís Gonzaga Gomes. Perpetuado na memória de Macau, o seu nome foi dado à rua onde hoje se situa a sede do Instituto Politécnico e o Centro de Actividades Turísticas de Macau. - Principais Obras. I- Divulgação. Festividades Chinesas, 1953; Contos Chineses, 1950; Lendas Chinesas de Macau, 1951; Curiosidades de Macau Antiga, 1945; Chinesices, 1952; Arte Chinesa, 1954; Museu Luís de Camões, 1973 e Representação Iconográfica da Gruta de Camões em Macau, 1972. II - Obras de Referência. Bibliografia Macaense, 1973; Efemérides da História de Macau, 1954 e Catálogo dos Manuscritos de Macau, 1961-1966. III- Traduções. Ou-Mun Kei-Leok (Monografia de Macau) por Tcheong-Ü-Lâm e Ian-Kuong-Iam. Tradução do Chinês por [. .. ], 1950; A Piedade Filial, de T châng-Tch' ám, 1944; O Clássico Trimético, de autoria atribuída a Uóng-Iêng-Lán, 1944; As Quatro Obras.Discursos e Diálogos; Suprema Educação, Meio Constante e Mêncio, 1945; O Livro da Via e da Virtude de Láucio, 1952; Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo. Adaptação em prosa de João de Barros (em colaboração com Tcheong Iek Tchi), 1953; P'ou Kuók Si-Leok [História de Portugal em Chinês], 1955; Relação da Grande Monarquia da China do Padre Álvaro Semedo ... , 1956, 2 vols. e Nova Relação da China do Padre Gabriel de Magalhães ... , 1957. IV História. Relations between Portugal and Macao with Malacca. Relações entre Portugal e Macau com Malaca, 1960 (ed. bilingue, Português e Inglês) e Páginas da História de Macau, 1966. V - Dicionários/Manuais. Vocabulário Cantonense-Português, 1941; Vocabulário Português-Cantonense, 1942; Vocabulário Português Inglês-Cantonense, 1954; Noções Elementares da Língua Chinesa, 1958 e O Estudo de Mil Caracteres, 1944. Antologia. Diversos textos de Luís Gonzaga Gomes foram reeditados nas páginas das Ia e IIa Séries da Revista de Cultura (adiante RC), editada em Português, Chinês e Inglês pelo Instituto Cultural de Macau entre 1987 e 1999. Por economia, omitiremos os títulos indicando apenas a Série, números do períodico, data e páginas em que se encontram. Assim, temos na Ia S:(3), Outubro-Dezembro 1987, pp. 152-166 e (4), Janeiro-Março 1988, pp. 89-101 e na IIa S (23), Abril/Junho 1995, pp. 123-131 e (27/28), Abril/Setembro 1996, pp. 187-194. - Colectânea. Macau Factos e Lendas: páginas escolhidas, ed. de Graciete Batalha,1979 e Macau - Um Município com História, org. De António Aresta e Celina Veiga de Oliveira, Macau, Leal Senado de Macau, 1997. - Representação em Antologias. Carlos Pinto Santos e Orlando Neves, coord., De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas, Macau, Instituto Cultural de Macau, 1996, vol. III, pp. 1129-1141. -Bibliografia. Luís Gonzaga Gomes- Uma Vida, Exposição bibliográfica (26-31 de Maio de 1986). Catálogo bilingue: Portuguêse Chinês, Instituto Cultural de Macau, (Macau, 1986); Luís Gonzaga Gomes. Exposição Fotobibliográfica, Instituto Cultural de Macau, Biblioteca Nacional de Macau, Arquivo Histórico de Macau, (Macau,1987); TEIXEIRA, Manuel, 'A memória de Luís Gonzaga Gomes', in Boletim do Instituto Luís de Camões, vol. X, (1) e (2), (Primavera e Verão 1976), pp. 145-159, artigo republicado na obra Liceu deMacau, 3.a ed. corrigida e aumentada, Macau, Direcção dos Serviços de Educação, 1986, pp. 466-481; IDEM, Vários Marcantes em Macau, Direcção de Serviços de Educação e Cultura, (Macau, 1982), pp. 167-168; SENA, Maria Tereza e BASTO, Jorge, Macau Nas Palavras, CD-ROM multimédia interactivo, Museu de Macau, (Macau, 1998); FORJAZ, Jorge, Famílias Macaenses, Fundação Oriente/Instituto Cultural de Macau, Instituto Português do Oriente, (Macau, 1996), vol. 2, pp. 40-41 e I, pp. 1038-1 039; TOMÁS, Túlio, 'Como Vi Luís Gonzaga Gomes', in Revista de Cultura, 2.' Série, (23), (Macau, Abril/Junho1995), pp. 119-122; MARREIROS, Carlos, 'Dobragens-de-papel. Luiz Gonzaga Gomes', in Revista de Cultura, Ia Série, (1), (Macau, Abril-Junho 1987), pp. 90-94. [M.T.S.]
Bibliografia: DIAS, Alfredo Gomes, 'Chinesices ... de Luís Gonzaga Gomes', in Macau, 3.a série, n.o 2, (Macau, Julho 2000), pp. 52-59.

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Data de atualização: 2023/06/14