Também conhecido como Padre Tseng (Zeng 曾), Álvaro Semedo nasceu em 1585 ou 1586, na vila alentejana de Niza, nas proximidades de Portalegre. Em 1602 entrou para o Colégio de Évora da Companhia de Jesus, onde realizou estudos religiosos durante alguns anos, e em Março de 1608, com 23 anos e já ordenado, embarcou em Lisboa com destino às missões jesuítas do Oriente. Destinava-se, em princípio, à missão do Japão, mas ao chegar a Macau, cerca de dois anos mais tarde, foi desviado pelas autoridades jesuítas da cidade para a missão chinesa. Em 1613 Semedo já desenvolvia trabalho apostólico em Nanjing 南京, onde colaborou na fundação de uma associação de cristãos dedicados ao Mestre do Céu, movimento que ensaiava uma tentativa de conciliação entre o cristianismo e o confucianismo, na linha da actuação de Matteo Ricci, e que tinha uma aceitação significativa entre intelectuais chineses, especialmente na capital do sul, onde existia então a mais importante comunidade de chineses cristianizados (com excepção de Macau). Mas em 1617, as autoridades imperiais desencadearam uma violenta campanha contra os missionários estacionados em Nanjing 南京. Álvaro Semedo e o seu companheiro Alfonso Vagnoni seriam presos, e subsequentemente expulsos para Macau. Aparentemente, a campanha fora desencadeada por um vice-presidente do Tribunal dos Ritos de Nanjing 南京, que tinha razões pessoais para antagonizar os padres; mas também não é improvável que os padres jesuítas tivessem sido utilizados como bodes expiatórios em confrontos políticos que opunham distintos sectores da sociedade chinesa. As perseguições durariam até 1621, período que Semedo parece ter passado em Macau. Mas neste último ano regressava ao interior da China, e a partir de então percorreria incansavelmente muitas províncias chinesas, demorando-se sucessivamente no Jiangxi 江西, em Nanjing 南京 e no Zhejiang 浙江. Em 1625 estava na província de Shaanxi (Shanxi 陝西), onde foi o primeiro europeu a examinar a célebre estela nestoriana de Hsi-an-fu (Xi’anfu 西安府), que provava a existência de comunidades cristãs na China no século VIII. Em 1636, Álvaro Semedo foi destacado para representar os interesses da missão jesuíta chinesa em Roma, e teve a oportunidade – raríssima para os missionários daquela época – de poder regressar à Europa. Partido de Macau em 1637, apenas chegaria a Lisboa dois anos e meio mais tarde. Em 1642 entrava em Roma, onde permaneceu durante dois anos, para depois encetar uma nova jornada rumo à Ásia Oriental. Desde 1648 até 1657, data da sua morte em Cantão, permaneceria em território chinês, sobretudo nesta última cidade e em Hangzhou 杭州 (na província de Zhejiang 淅 江), efectuando entretanto algumas visitas a Macau. Talvez valha a pena referir que nestes anos Semedo teve oportunidade de assistir aos distúrbios políticos e militares provocados pela queda da dinastia Ming 明, que a partir de 1644 cedeu o lugar aos Qing 清, originários da Manchúria. Assim, o padre jesuíta viveu durante mais de trinta anos em diversas localidades do Celeste Império, convivendo intimamente com gente chinesa oriunda dos mais diversos estratos sociais. Ao longo deste período, o religioso português estudou diligentemente a língua chinesa, da qual adquiriu um extraordinário domínio, ao mesmo tempo que observava com vagar e com rigor os mais variados aspectos da civilização chinesa. Os conhecimentos sínicos assim adquiridos permitiram-lhe redigir um longo e bem informado tratado sobre a China, que viria a ser publicado em distintas versões durante a sua visita à Europa. Assim, em 1642 era impresso em Lisboa um anónimo resumo da obra, com o título de Breve recompilação dos principios, continuação e estado da Christandade da China. Trata-se de um raríssimo folheto de 12 páginas, de que não se conhece hoje qualquer exemplar, mas que é mencionado pelos bibliógrafos. No ano seguinte, o historiógrafo português Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), que obtivera uma cópia integral do manuscrito de Semedo, fazia imprimir em Madrid uma versão em castelhano, intitulada Imperio de la China & cultura evangelica en el por los religiosos de la Compañia de Jesus. Entretanto, o nosso missionário chegava a Roma em 1643, onde, nesse mesmo ano, dava à estampa uma versão italiana da obra, a que deu o título de Relatione della grande monarchia della Cina. É esta, sem dúvida, a edição mais rigorosa e mais valiosa, já que foi composta sob a atenta supervisão do autor. Mais tarde, a obra do padre Semedo haveria de obter um extraordinário sucesso editorial, pois seria repetidamente impressa em vários países europeus. A edição portuguesa integral da obra, em retroversão da versão italiana, apenas seria publicada em 1956, numa tradução de Luís Gonzaga Gomes, que foi mais tarde reeditada. A Relação da Grande Monarquia da China apresentava um retrato muito extenso e muito rigoroso da sociedade chinesa de meados do século XVII, pois, ao basear-se na própria experiência do autor e nos seus largos conhecimentos de língua e de cultura chinesas, ultrapassava as grandes limitações de outros portugueses que anteriormente tinham tentado descrever o Celeste Império a partir do exterior. Como o próprio Semedo afirmaria, antes dos jesuítas entrarem em território chinês, dele só se conhecia “aquilo que deixa escorrer, como por excesso, pelas faldas da região de Cantão”. [R.M.L.]
Bibliografia: MUNGELLO, David E., Curious Land – Jesuit Accomodation and the Origins of Sinology, (Honolulu, 1989); SEMEDO, Álvaro, Relação da Grande Monarquia da China, (Macau, 1994).

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Data de atualização: 2022/11/03