Anotações: O Sr. Ng Lei Sun ofereceu a Macau Documentation and Information Society.
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Data de atualização: 2019/08/05
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Data de atualização: 2019/08/05
Sendo o mais importante deus familiar dos chineses, esta divindade preside a todos os actos da vida de um povo trabalhador e essencialmente religioso, desde os mais simples aos mais transcendentes. A sua origem é desconhecida, sendo opinião dos literatos chineses que a estatueta de Tou Tei (Tudi 土地), rude e por vezes disforme, geralmente feita de argila ou pedra, deve representar qualquer herói, ou, possivelmente, a deificação dos chefes de clãs que em eras longínquas deram estrutura à nação. Teve referência especial, pela primeira vez, no livro Li Chi (Li Ji 禮記), uma das cinco obras clássicas da literatura chinesa. Generalizou-se de tal forma a crença em Tou Tei (Tudi 土地) que, ao lado das muitas divindades que povoam o calendário chinês, de oragos locais, de deuses familiares e de todos quantos presidem aos diversos actos da actividade do homem, ele ocupa lugar de destacada importância pelos ritos do culto que lhe é tributado. Além de ser o orago de todos os bairros das cidades, vilas e aldeias, conjuntamente com a divindade própria de cada bairro, tem um altar em todas as residências e é tratado como pessoa de família. Quem percorrer as ruas de qualquer povoação chinesa notará, em cada porta, um pequeno altar. Muitas vezes este é um simples nicho, onde se pode ver uma estatueta que nunca tem mais de trinta a cinquenta centímetros de altura. Sentado no seu trono, tem nalguns casos à esquerda a sua mulher e, à direita, representada por uma estatueta mais pequena, uma concubina. Noutros locais, encontra-se apenas uma simples tabuleta com a inscrição do seu nome. Fora do pequeno santuário ou da tabuleta, existe um receptáculo para queimar papéis de culto e depor oferendas, bem como um montículo de terra batida onde se espetam pivetes em dias de festa ou quando, ao deus, se agradece um benefício recebido ou se faz qualquer pedido. Tou Tei (Tudi 土地) é pessoa de família a quem tudo se confia. Nas aflições, contratempos e dificuldades, os chineses procuram lenitivo e consolação junto desse deus familiar, a quem também se queixam amargamente da infelicidade e pouca sorte. Mas nas horas de alegria e abastança agradecem-lhe, com generosas oferendas, a protecção concedida e os ventos da sorte que sobre eles fez soprar. É ainda a esse ente familiar que confiam os seus anseios e esperanças, os negócios em perspectiva, consultando-o em todas as decisões a tomar. A ele se comunicam, em primeiramão, os nascimentos, as mortes e os casamentos. É ele que protege os recém-nascidos e favorece os lares novos, para que reine a paz, a harmonia, a felicidade. Para ele se voltam chineses devotados às mais diferentes ocupações: os camponeses quando as searas, à míngua de chuva, começam a secar e, nas espigas, o grão vai mirrando; os pescadores, quando as redes sobem escassas de peixe; os comerciantes, quando as estradas andam povoadas de salteadores; e ainda todos aqueles para quem desanda a roda da fortuna. Tou Tei (Tudi 土地) é o amigo, patrono e conselheiro da família, e para ele se dirigem todos os corações, quer nas horas de alegria quer nos momentos de aflição. A ele se confessam os mais íntimos desejos e os segredos mais reservados. Além de vários santuários e outras pequenas edificações, existem em Macau dois templos dedicados a Tou Tei (Tudi 土地). Pressupõe-se que o mais antigo seja o que fica situado no Bairro do Patane, sobre o qual se ergue o recinto do Jardim Camões. É este local de culto conhecido, entre os chineses, por templo dos deuses locais, ou Tou Tei Mil (Tudi Miao 土地廟). O Bairro do Patane é também designado por Sa-Kong (Shagang 沙崗), nome por que era conhecido outrora um montículo que ali existia, formado por acumulação de areia trazida pelo vento. É essa a razão por que esse local também é conhecido por Fei Lei Kong (Feilaigang 飛來崗), montículo que apareceu a voar. Os chineses também deram a este bairro a designação de Sa Lei Tau (Shalitou 沙梨頭), por as ruas apresentarem então a forma de uma pêra. A primeira povoação, com estas várias toponímias, deu origem ao Bairro do Patane, que era um dos mais populosos dos bairros chineses de Macau, e chegou a ter grande importância, por ali se encontrarem concentrados os estabelecimentos que comerciavam com o interior da China. Segundo testemunhos de velhos residentes do Bairro do Patane, numa tradição ou lenda que chegou aos nossos dias, ali vivia um indivíduo de nome Lam Man (Lin Wen 林文), cujo filho, Lam Seng (Lin Sheng 林勝), era considerado por todos os moradores extremamente piedoso e apontado como modelo de amor filial. O velho Lam (Lin 林) era um homem bom, honesto e trabalhador. Enxuto de carnes mas forte de nervos, tez morena, trabalhava do amanhecer ao pôr-do-sol, apesar do corpo franzino não aconselhar grandes esforços. Tinha a sua modesta casa na Rua da Parede de Pedra, que construíra com a ajuda de alguns amigos. A esposa, diligente e dedicada, tratava da lida da casa, que conservava sempre limpa e asseada, e cozinhava refeições frugais. Os filhos, já crescidos, ajudavam os pais nos trabalhos e tarefas do dia-a-dia, quer nas lidas da casa quer na sua pequena oficina de carpinteiro. O filho, Lam Seng (Lin Sheng 林勝), rapaz forte e desempenado, tinha para com os pais um amor e dedicação que os vizinhos e amigos invejavam. Era companheiro do pai nos trabalhos de carpintaria. A filha, Lam-Mui (Lin Mei 林 妹), já com dezoito primaveras, era uma moça cheia de vida, com um coração de oiro que tudo sacrificava, incluindo os próprios admiradores, para que os pais e o irmão vivessem alegres. Davam-se bem com os vizinhos, que lhes tributavam respeito e admiração, por serem uma família unida que, para todos, procurava ser prestável. Entre as lidas da casa, ajudando a mãe, e o trabalho na oficina, ao lado do pai e do irmão, Lam Mui (Lin Mei 林妹) nunca se dera conta de que um rapaz, que trabalhava perto, numa loja de vinho chinês, nutria por ela uma forte atracção. Tentou abordá-la, falar-lhe, apertar o cerco com esperas em lugares esconsos, dirigir-lhe graças da sua simpatia. Lam Mui (Lin Mei 林妹) mostrava-se esquiva e indiferente, evitava os encontros. Mas o assédio era cada vez mais insidioso e constante, a ponto de ela ter de confessar aos pais e ao irmão o que se estava a passar. O velho Lam (Lin 林) foi de imediato à procura do rapaz e fez-lhe ver que a sua filha não era para ele. Já estava prometida ao filho de um abastado comerciante, seu amigo, oriundo da mesma aldeia natal. Nas suas palavras, deixou no ar, em forma de ameaça velada, que as coisas não ficariam por ali se o rapaz, leviano e insensato, teimasse em perseguir Lam Mui (Lin Mei 林妹) com palavras inconvenientes e propostas descabidas. Acontece que, pouco tempo depois da conversa do velho Lam (Lin 林) com o rapaz, de que todo o bairro veio a saber, um temporal terrível se abateu sobre a cidade, libertando trovões e raios de amedrontar pessoas e animais. E, no recanto de uma viela do bairro chinês, apareceu morto o infeliz rapaz. Logo suspeitas infundadas de crime, nas vozes dos vizinhos, recaíram sobre o acabrunhado Lam (Lin 林). As autoridades policiais, sabedoras do que se passava, foram buscá-lo à sua pobre casita para o meterem atrás das grades. A desgraça entrou na casa humilde da Rua da Parede de Pedra. Os deuses, duros e indiferentes, tinham abandonado aquela família tão unida e tão trabalhadora, apenas porque o rosto lindo e a figura graciosa de Lam Mui (Lin Mei 林妹) haviam despertado uma paixão violenta. A senhora Lam (Lin 林) sucumbiu a tão profundo desgosto e a tamanha desonra, sendo colocada a descansar o sono eterno na modesta sepultura que os filhos, com redobrado amor, lhe prepararam numa pequena colina de bom fong-soi (feng shui 風水), cumpridos os ritos e cerimónias fúnebres com preces e oferendas. Lam Mui (Lin Mei 林妹) fechou- se no seu pequeno quarto, deixando deslizar lágrimas de angústia pelas faces já sem cores, definhava dia após dia, exibindo tristeza nos olhos sem brilho, secura no corpo delicado e dor no coração despedaçado. Lam Seng (Lin Sheng 林勝) vagueava como louco por ruas, becos e travessas, deixando ao abandono as ferramentas e as madeiras com que fabricavam móveis e outros objectos. Não se conformava com a injustiça de o pai, bom, honesto, trabalhador, estar a pagar por um crime que não cometera e de ter sido vítima de quem, antes, tanto o respeitava e admirava. Desesperado por se ver impotente para tirar o pai daquele sofrimento atroz que, noite e dia, lhe mirrava o corpo franzino e despedaçava a alma, deixou-se dominar por pensamentos de mau agoiro. Tresloucado e demente, numa noite sem estrelas, junto de uns penedos onde os moradores do bairro costumavam orar, lançou ao galho de uma árvore um baraço de corda para pôr termo a tão grande desespero. Por clemência dos deuses ou em virtude de a árvore se encontrar carcomida, viu-se estatelado na terra húmida, e, quando abriu os olhos, achou-se ainda no reino dos vivos. Mas o desespero e a demência não largavam o seu intento. Já não acendia pivetes nos pagodes nem se lembrava de que a pobre irmã, aquela que fora bonita, jovem e graciosa, se ia transformando num farrapo com a dor. Por mais duas vezes lançou o baraço de corda a outros galhos da mesma árvore, e, outras tantas vezes se viu estatelado no solo húmido, partindo-se os galhos para que a força dos músculos e o vigor da mocidade voltassem aos trabalhos da pequena oficina. Confuso e atónito com tão inacreditável acontecimento, sentouse num dos penedos, olhos postos no infinito, a mente parada no tempo. Pressentiu que algo estava a modificar a sua vida e o seu destino, que alguma coisa pairava no desígnio dos deuses e na vontade dos homens. Imbuído destes reconfortantes pensamentos, sentiu que alguém se sentara a seu lado, talvez no penedo da esperança. Era a figura singular de um homem, alto de estatura, forte de aspecto, inteligente nos olhos brilhantes, bondoso no sorriso franco e aberto, sensato nas palavras que proferiu. Ao jovem Lam Seng (Lin Sheng 林勝), pausadamente, disse que a felicidade se alcança combatendo a adversidade, que ele tinha várias formas de chegar à consecução dos seus desejos, libertando assim o pai das garras da justiça. Uma delas era pagar generoso resgate para o trazer de novo à liberdade, ao convívio dos filhos, aos trabalhos da sua oficina de carpinteiro. Entregou-lhe uma moeda de rica prata com a recomendação de que tentasse a sorte numa lotaria, porque muitas vezes os ventos da sorte são benéficos e os deuses condescendentes. E num dia de sol, que lhe secava no rosto macerado as lágrimas de felicidade, o velho Lam (Lin 林), na companhia do filho dedicado, transpôs a porta da sua humilde casinha, onde a filha querida, a bonita Lam Mui (Lin Mei 林妹), de coração de oiro, o esperava enfeitada de noiva feliz. O templo do Bairro do Patane, dedicado aos deuses locais, representados na sua generalidade por Tou Tei (Tudi 土地), foi mandado construir pelos moradores daquele bairro, que, para tanto, se quotizaram em homenagem à edificante piedade filial de Lam Seng (Lin Sheng 林勝) e para prestarem culto à estranha personagem que lhe apareceu em forma humana, e que era certamente Tou Tei (Tudi 土地). Foi ainda formada, pelos moradores, uma associação para tratar da conservação do templo e promover anualmente, no dia segundo da 2.ª Lua, as festividades tradicionais em honra de Tou Tei (Tudi 土地), o deus familiar. Com o andar do tempo, o templo do Bairro do Patane foi perdendo importância em relação ao templo da Rua Tomás Rosa, no Bairro de Cheoc Chai Un (Quezaiyuan 雀仔園), também conhecido por Horta da Mitra. Como muitos outros, este templo era um pequeno santuário construído fora das muralhas da cidade e servia de local de culto aos humildes horticultores que ali viviam, trabalhando em várzeas e hortas. Quando se tornou necessário proceder ao saneamento das várzeas e pântanos ali existentes – eram focos de muitas doenças – e nesses campos rasgar novas ruas e avenidas, o pequeno santuário teve de ser deslocado para outro sítio, a pedido do Governador Tomás da Rosa. Devido às contribuições do Governador para a sua remoção e ampliação, quiseram os moradores que a essa artéria, onde ficaria o templo, fosse dado o nome de Tomás Rosa. O culto de Tou Tei (Tudi 土地) e os festejos em sua honra vêm de uma antiguidade que remonta a tempos imemoriais. Só foi, porém, oficializado, conforme consta de velhos alfarrábios, no ano 198 a.C., por Lau Pong (Liu Bang 劉邦), fundador da dinastia Hon (Han 漢), como homenagem a um dos heróis chineses dos primórdios da nacionalidade. É, pois, no templo do bairro da Horta da Mitra que se realizam as principais cerimónias rituais das festas de Tou Tei (Tudi 土地), por ter sido recuperado e muito beneficiado no ano em que completou cem anos da sua existência naquele local. Os festejos iniciavam-se, antigamente, com uma cerimónia singular, que constituía um espectáculo fascinante. Na zona delimitada pelas ruas Ferreira do Amaral e Henrique de Macedo, e a Calçada do Gaio, procedia-se, à hora do meio-dia, ao rebentar de panchões e de petardos, perante uma numerosa assistência de residentes de vários bairros, que ali acorriam. E como em todas as festividades chinesas, obedecendo a velhos hábitos, ritos e crenças, estava sempre presente a dança do leão, a grande atracção nesses momentos de alegria e de agradecimento aos deuses, em virtude de estes terem afastado os espíritos maus. Com o crescimento da cidade e o movimento de veículos e pessoas, essa cerimónia de abertura dos festejos deixou de se realizar ali, passando para as imediações do templo da Rua Tomás Rosa. São queimados panchões e acesos milhares de pivetes de sândalo pelas muitas pessoas que vão agradecer as venturas recebidas e a prosperidade que Tou Tei (Tudi 土地) lhes proporcionou, o mesmo acontecendo nos outros santuários e pequenos altares espalhados pela cidade. Mas não basta rebentar panchões, acender pivetes, queimar papéis doirados, alegrar-se em noites de luar manso e brisa suave. É também necessário depor aos pés de Tou Tei (Tudi 土地), no átrio ou no interior do templo, generosas e variadas oferendas que sejam do seu agrado e tragam ventos benéficos às dores e aflições dos seus devotos. Todos levam a gratidão das benesses recebidas e a esperança de que Tou Tei (Tudi 土 地) seja benigno e atenda às suas preces, porque é o deus da família a quem todos recorrem nos momentos de alegria e de tristeza. Quanto aos festejos, prolongam- se pela noite dentro, com a representação de ópera chinesa no palanque ali erguido para o efeito. Na esplanada do templo exibem-se acrobatas, há música e números de folclore, a par com a dança do leão. São cinco dias de festa em que todos esquecem tristezas, dificuldades e carências, e se entregam ao regozijo e à certeza de que Tou Tei (Tudi 土地) é o amigo das horas boas e das horas más. [J.S.M.] Bibliografia: MACHADO, José Silveira, Macau, Mitos e Lendas, (Macau, 1998).
TOU TEI (Tudi 土地)
| Personagem: | Cheng Seong Chao |
| Wong Chan Chong | |
| Mok Io Chao | |
| Tempo: | Época da República entre 1911 e 1949 |
| 02/1949 | |
| Palavra-chave: | Certificado de nomeação |
| Taoísmo | |
| Loi Tsou |
| Detentor actual: | Macau Documentation and Information Society |
| Autorização: | Autorização do uso à Fundação Macau por Macau Documentation and Information Society |
| Dimensão: | 37 x 36 cm |
| Idioma: | Chinês |
| Tipo: | Imagem |
| Papel | |
| Certificado de nomeação | |
| Identificador: | p0015894 |
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