O Dr. Paulo Siu, ou mais propriamente, Xu Guangqi 徐光啟, nasceu em Xangai (Shanghai 上海), a 24 de Abril de 1562. Tendo seguido a carreira das Letras, ultrapassou com êxito todas as etapas do complexo sistema de ensino chinês, atingindo o mais elevado grau académico, em 1604. Não menos brilhante foi a sua passagem por sucessivos patamares da carreira políticoadministrativa (director da Instrução Imperial, subsecretário do Tribunal dos Ritos, presidente do mesmo Tribunal), vindo a ascender, a 1 de Julho de 1632, ao mais alto posto da hierarquia chinesa: chanceler do império ou colao (gelao 閣老), cargo equivalente ao de conselheiro de estado. Desempenhava já tais funções, quando, no início de 1633, o imperador o nomeou preceptor do príncipe herdeiro. Todavia, não foram as invulgares capacidades de letrado ou a fulgurante carreira política, que fizeram deste mandarim objecto de notícia de inúmeras Cartas Ânuas e outros documentos da missão da China, e tornaram o seu nome conhecido nos círculos intelectuais europeus das primeiras décadas do século XVII, mas sim a sua conversão ao cristianismo e o papel decisivo que desempenhou na expansão e consolidação da jovem Igreja chinesa. Os primeiros contactos de Xu Guangqi 徐光啟 com a nova religião, recentemente introduzida no Império do Meio, tiveram lugar em Xao Cheu [Shaozhou 韶 州], província de Guangdong 廣東, quando, ainda bacharel, exercia funções docentes numa família desta povoação. Corria o ano de 1596, e foi seu primeiro interlocutor o jesuíta Lazzaro Cattaneo. Em 1600, encontrou-se pessoalmente, em Nanjing 南京, com Matteo Ricci, de quem tinha já vaga notícia, através da edição do seu Mapa-mundi. Tratou-se, no entanto, de um contacto passageiro e sem consequências imediatas, como refere António de Gouvea: “Tornado a Nan Kim o anno de 1600, visitou o Padre Matheus Ricio que estava naquella Corte, e ainda que começou a tratar da Ley de Deos, tudo foi tão de corrida e tão acaso que nenhua impressão fez nelle o que ouvio”. Todavia, decorridos três anos, encontrando-se em Xangai (Shanghai 上海), decidiu dirigir-se de novo a Nanjing 南京, em busca de Ricci. Anota Gouvea que, por esse tempo, Xu Guangqi 徐光啟 “andava suspenso, porque na sua Seyta dos Letrados [Confucionismo] não avia menção da outra vida nem das almas. Tinha ouvido muyto dos Pagodes [Budismo] e do que os seus menistros contam do inferno, mas nada o aquietava”. Em Nanjing 南京 não encontrou Ricci, mas sim o jesuíta português João da Rocha, que o acolheu, catequizou durante vários dias e, por volta de 15 de Janeiro desse mesmo ano, lhe administrou o baptismo, como informa Gouvea: “No anno de 1603, tornando o Siu a Nan Kim, visitando o Padre João da Rocha, Superior daquella Casa, começou a tratar em forma de sua Salvação. Alegrou-se muyto de ouvir praticar o Padre […]. Finalmente, com muyto boa intelligencia da Ley de Deos, recebeo o Santo Baptismo por mão do Padre Rocha, que a teve para dar à Missam da China tam grande encosto e columna. Chamou-se Paulo, competindo nelle Virtudes e Letras. Subio ao auge das honras sinicas, que he a dignidade de Colao. Sua fé foi tam firme, sua Christandade tam solida, que por toda esta historia o traremos sempre na penna e na memoria”. Tendo alcançado o grau de doutor, em Abril de 1604, fixou-se em Pequim (Beijing 北京), onde entrou em grande familiaridade com os jesuítas aí residentes e, em particular, com Matteo Ricci, de quem se tornou amigo e admirador, e sob cuja orientação traduziu e publicou, em 1606 e 1607, os seis primeiros livros dos Elementos, de Euclides. Em Maio de 1607, por ocasião da morte de seu pai, dando cumprimento a uma velha tradição chinesa, retirou-se para Xangai (Shanghai 上 海), sua terra natal. Durante a sua permanência e com o seu apoio explícito, foi possível dar início, nesta vila, a uma das mais promissoras comunidades cristãs de toda a missão. O seu regresso a Pequim (Beijing 北京) teve lugar em 1611, cerca de um ano após a morte de Ricci. A intervenção do Doutor Paulo em defesa do Cristianismo teve um dos seus pontos fortes durante o chamado processo de Nanjing, movido pelo vice-presidente do Tribunal dos Ritos desta cidade, entre 1615 e 1617. Não só movimentou toda a sua influência junto dos mais altos mandarins da corte imperial, como redigiu e divulgou uma apologia da fé cristã e acolheu em sua casa vários missionários, pondo seriamente em risco, quer a posição social, quer a própria vida. Com o objectivo de dar visibilidade aos conhecimentos científicos dos missionários e, através deles, granjear a benevolência do imperador e dos mais destacados mandarins para com o Cristianismo, em 1629, exercendo o cargo de subsecretário do Tribunal dos Ritos, Paulo Xu propôs os nomes dos jesuítas Giacomo Rho e Johann Terrenz Schreck para a reforma do calendário chinês. Esta tarefa viria, efectivamente, a ser concluída com êxito em 1635, graças à dedicação e capacidade científica dos padres Rho e Adam Schall, este último em substituição de Schreck, falecido em Maio de 1630. Não raras vezes fez, o Doutor Paulo, uso da sua influência junto do imperador e dos altos dignatários da corte, a favor da cidade de Macau e dos missionários e mercadores portugueses aí residentes. Apesar de ocupar um dos mais importantes e prestigiantes cargos da hierarquia imperial, quando morreu, em Novembro de 1633, encontrava-se tão pobre que não deixou dinheiro suficiente para o funeral. A expensas do erário público, foram os seus restos mortais conduzidos a Xangai (Shanghai 上海) e aí solenemente depositados numa sepultura mandada construir pelo próprio imperador. Considerado por todos como uma das mais firmes colunas da Igreja chinesa, a memória de Paulo Siu permaneceria ainda viva, durante várias gerações de missionários. Testemunha privilegiada dessa memória foi o padre António de Gouvea que, tendo chegado a Xangai (Shanghai 上海) apenas três anos após a sua morte, teve oportunidade não só de ouvir os relatos da sua virtude, mas também de contactar pessoalmente com a esposa, filho e netos, cuja piedade elogiou em várias das suas obras, de que é exemplo expressivo o seguinte passo da Carta Ânua, de 1636: “Fez-se na nossa Igreja um Presepe muito lindo e bem feito, concorrendo para elle com esmolas os netos e netas do Colao […]. A molher do Colao com todas as suas netas vierão à Igreja; nella estiverão toda hua tarde, folgando muito de ver o santo Presepe, perguntando muito meudamente por tudo o que nelle havia. Quando foy pelos Reys, tornarão a vir e ouvirão praticar daquelle misterio; confessarão-se todas e procedem como netas de tão bom christão como foy o Doutor Colao Paulo […]. O filho do Doutor Colao Paulo procede na materia de Christandade como dantes, sempre muito inteiro e grave, muito recolhido e retirado, e com grande cuidado sobre seus filhos e filhas e sobre toda sua familia, que sejão bons christãos e que adorem e sirvão ao verdadeiro Senhor do Ceo”. [H.P.A.] Bibliografia: Biblioteca da Ajuda, Lisboa, Códs. 49-V-1 e 49- V-2; D’ELIA, Pasquale, Fonti Ricciane, 3 vols., (Roma, 1942- 1949); GOUVEA, António de, Cartas Ânuas da China (1636, 1643 a 1649) , (Macau; Lisboa, 1998); SEMEDO, Álvaro, Relação da Grande Monarquia da China, (Macau, 1994).
Comentários
Comentários (0 participação(ões), 0 comentário(s)): agradecemos que partilhasse os seus materiais e histórias (dentro de 150 palavras).