As pretensões holandesas para ocupar Macau remontam ao início do século XVII. Esta praça portuguesa desenvolvia um próspero negócio entre a China e o Japão, para além de outras lucrativas rotas secundárias. Todavia, todas as tentativas de ataque ao referido território, nomeadamente em 1601, 1603 e 1607, tinham-se mostrado infrutíferas, em termos de ocupação efectiva. Em 1611 os holandeses conseguiram estabelecer-se em Firando, no Japão. No entanto, esse entreposto não era suficientemente lucrativo para aquilo que pretendiam obter. Comparativamente com o volume de mercadorias transaccionadas pelos portugueses através de Macau, Firando revelava-se uma pálida fonte. Assim, os directores da Companhia das Índias Orientais Holandesas compreenderam que, para manter e engrandecer a sua posição em terras nipónicas, teriam que se instalar no sul da China. Daqui obteriam seda crua e, conjuntamente com mercadorias europeias, poderiam seguir rumo ao Japão, a fim de as transaccionarem por ouro, cobre e, principalmente, prata. Em 1619, Jan Pieterzoon Coen foi nomeado Governador-geral das Índias Orientais pelo Governo holandês e um novo ataque foi preparado a partir de 1621. Macau nessa época era uma praça aberta, sem guarnição, que seria relativamente fácil de ser conquistada, pois a cidade ainda não tinha fortificação expressiva, por falta do consentimento chinês, que a julgava não necessária. Contudo, possuía alguns baluartes e canhões. No burgo habitavam à volta de 700 a 800 portugueses e mestiços e cerca de 10.000 indivíduos de etnia chinesa. Em 1621 foi feito um pedido à população de Macau para fornecer 100 homens e armamento bélico para apoiar a dinastia Ming 明 contra os tártaros, que a Norte pressionavam cada vez mais. Assim, a cidade encontrava-se muito desfalcada de homens válidos, para além de, concretamente, não haver ninguém a assumir o comando da cidade (este função era uma prerrogativa do Capitãoda- nau do Japão, quando tinha que forçosamente permanecer na praça, antes de se iniciar a época propícia). Segundo Beatriz Basto da Silva, em Abril de 1622, por alvará de Goa, tinham sido providos no cargo de capitães- de-guerra o Padre Frei António do Rosário (dominicano), Fernandes de Carvalho e Agostinho Gomes, sem dependência dos capitães-da-nau do trato. No entanto, só tomaram posse em Julho do referido ano. Os holandeses consideravam a posição portuguesa muito delicada e, por tal motivo, alvo fácil para um ataque bem sucedido. O governador Coen, apesar de não querer de maneira alguma a participação inglesa no desembarque bélico, bem como na posse da fortaleza que os holandeses pretendiam erguer na praça lusa, aceitou o apoio dos ingleses e enviou dois navios, conjuntamente com mais dois holandeses, para bloquearem Macau. No dia 10 de Abril de 1622, a esquadra holandesa partiu de Batávia em direcção ao alvo a atacar. Faziam parte dela os seguintes navios: Zierikzee, comandado por Cornelius Reijersen, que acumulava o cargo de Comandante em Chefe da expedição; Groeningen, comandado pelo Capitão Bontekoe; Oudt Delft, sob o comando do Capitão Andriessen; Enchuizen, tendo D. Pietersen por Capitão; De Galiias, sob a responsabilidade de D. Floris; De Engelsche Bear, capitaneado por L. Naning; St. Nicholas, por J. Constant; e Palicatta, sob o comando do Capitão J. Jacobson. O número total de homens atingia os 1.024. Integrado neste número estavam oficiais, marinheiros, soldados guzerates (gente oriunda de Guzerate, na Índia), bandanenses (elementos da população das ilhas de Banda, tomadas pelo governador Coen entre 1619-1621) e alguns japoneses. Salvo os dois últimos navios indicados, de menor tonelagem, todos os outros eram naus. Segundo Charles Ralph Boxer, tinham entre 70 a 200 toneladas. Os tripulantes de menor categoria trabalhavam na arrumação da carga ou como remadores de botes. A armada realizou o seguinte itinerário: zarparam a 10 de Abril de Batávia, seis dias depois passaram pelo Estreito de Palembang ou Bangka, aportaram em Bintang a 3 de Maio e, dali, seguiram para Pulo Condore. Ao longo deste trajecto encontraram-se com outro navio holandês, Nieuw Zeelandt, que havia aprisionado barcos portugueses. No dia 26 do mesmo mês, chegaram à baía de Pandorang. Aqui, não só dominaram juncos chineses, como também se lançaram ao ataque de duas fragatas portugueses, que se encontravam cerca de 16 milhas a Norte. A 30 de Maio, o capitão Nieuwroode, com quatros navios de menor tonelagem, (o Haan, o Tiger, o Victória e o Santa Cruz), fez a sua aparição a fim de se juntar às forças atacantes. Entretanto, o capitão Bontekoe, a bordo dos navios enviados a Comorin [Cam Ranh] com o intuito de hostilizar as fragatas portuguesas que aí se encontravam, apresentou o resultado da sua expedição, que se tinha saldado pelo apresamento de uma das fragatas e incêndio de um junco chinês em fase de construção. Todavia, toda a tripulação, exceptuando o piloto, tinha conseguido escapar. Tal situação revelava-se preocupante, pelo facto de haver a possibilidade de uma fuga de informação sobre a pretensão holandesa, dando a oportunidade à cidade de se precaver contra um assalto inimigo. No dia 10 de Junho, a esquadra partiu de Comorin [Cam Ranh], onde tinha chegado três dias antes, mas sendo já composta por 11 navios. Pelo caminho encontraram um junco de guerra do Sião com japoneses, entre a tripulação vulgar. Estes, que já tinham estado ao serviço dos portugueses de Macau e tinham logrado escapar depois de uma contenda com os siameses, ofereceram-se para integrar a expedição holandesa de ataque. Após uma redistribuição de todos os homens envolvidos, surgiram nove companhias de soldados e marinheiros europeus, comandados por nove oficiais (estes, por sua vez, encontravam- se sob o comando de Reijersen). As nove companhias formavam três regimentos, que receberam 600 libras de munições de mosquete e espingarda, seis barricas de pólvora, um cirurgião, uma bandeira com as cores nacionais da Holanda, 60 escadas, 1.000 sacos e três peças de artilharia. No dia 20 de Junho passaram ao largo da ilha de Sanchoão, já muito próximo de Macau, e no dia 21 fundearam junto à localidade portuguesa, onde já se encontravam as quatros naus enviadas pelo Governador Coen. O total de europeus envolvidos no potencial ataque seria de 600. Entre as fontes portuguesas e holandesas surge uma certa discrepância sobre o número exacto, na medida em que apresentam sempre uma diferença de 200 homens envolvidos directamente no ataque. Provavelmente, segundo Charles Ralph Boxer, isso deveu-se ao facto dos holandeses não contabilizarem os japoneses, bandaneses e guzerates, por não serem europeus. Os mesmos aparecem referenciados nas fontes portuguesas, em virtude de se encontrarem entre as forças atacantes. Também nas cartas ânuas do Colégio de Macau, de 1622, a referência ao número de naus atacantes ascende a 27. No dia 22 de Junho desembarcaram três homens com o objectivo de sondarem, junto do bairro chinês, qual seria a receptividade da sua população em caso de ataque. Tal sondagem revelou- se infrutífera, obrigando mesmo, no dia seguinte, a ida a terra do próprio comandante em chefe, Reijersen, para fazer o reconhecimento da cidade e arredores, a fim de se decidir pelo melhor local para o desembarque das tropas. Assim, decidiu efectuar este a partir da praia de Cacilhas, a Nordeste da Península, desenvolvendo- o dessa zona para Sul. Entretanto, na tarde de 23 de Junho, com o objectivo de permitir estas manobras preparatórias, três navios holandeses travaram um duelo de artilharia com o baluarte de S. Francisco. O facto de tão grande armada estar fundeada junto a Macau, pos sibilitou aos moradores da praça a conclusão de um ataque massivo inimigo. Logo cedo do dia 24, o ataque desencadeou-se em duas frentes: uma ao baluarte de S. Francisco pelos navios Groeningem e Gallias e outra através das hostes atacantes na praia de Cacilhas. Utilizando o truque de incendiar uma barrica de pólvora, cuja fumarada escondia o desembarque, foi possível efectuar o mesmo com êxito. A defesa portuguesa era bem pobre. Integrava cerca de 60 portugueses e 90 filhos da terra, sob o comando de António Rodrigues Cavalinho. Neste confronto, os holandeses sofreram uma importante baixa, o próprio Reijersen, que embora não tivesse falecido, teve de ser evacuado para bordo. No entanto, as forças lusas foram recuando à medida que os inimigos iam avançando. O comandante substituto, Ruffijn, não conseguiu de imediato o apoio dos outros comandantes, impasse que permitiu aos moradores retirarem-se e reorganizarem uma defesa melhor. Na praia ficaram duas companhias com cem homens cada, tendo os restantes avançado sobre a cidade. Não havendo nesta um líder implicitamente aceite por todos, a defesa foi pensada e elaborada de forma colectiva. Distribuíram-se armas pelos elementos aptos para o contra-ataque, incluindo escravos. As mulheres e crianças refugiaram-se no seminário jesuíta de S. Paulo, por ser o único edifício sólido e eficaz para esse efeito na cidade. A atitude seguinte dos holandeses foi atacar e ocupar a colina da Guia, pois era ponto estratégico para bombardear a cidade. No entanto, viram os seus intentos gorados, pois um morador, Rodrigo Ferreira, com 8 europeus e 20 filhos da terra fizeram-lhes frente, obrigando ao seu recuo. Entretanto, já os comandantes dos fortes de Santiago e do Bom Parto se tinham apercebido que o ataque se estava desenrolar essencialmente a Nordeste da cidade e apressaram o envio de um reforço de homens sob o comando de João Soares Vivas. O padre Giacomo Rho, S.J., que se encontrava de passagem por Macau a caminho de Pequim, conseguiu infringir pesadas perdas ao inimigo ao atingir o paiol de pólvora dos mesmos, a partir da Fortaleza do Monte. Outra pessoa que se distinguiu neste combate foi Lopes Sarmento de Carvalho. O mesmo, ao carregar sobre os inimigos, conseguiu provocar uma baixa que desorientou os holandeses: a morte de Ruffijn. A partir desse momento iniciou-se a debandada holandesa. Perseguidos pelos portugueses, foram mortos ou morreram afogados na tentativa de alcançarem os navios, embora alguns se tivessem posto a salvo. Ao sentirem-se vitoriosos, os moradores agraciaram de imediato alguns escravos com a liberdade e, em seguida, dirigiram-se para S. Paulo, onde celebraram uma acção de graças. Reijersen, no seu diário, reconheceu a vitória dos portugueses, tendo também salientado as baixas sofridas entre os seus homens. Esta saldou-se por 136 mortos e 126 feridos com gravidade. Os holandeses perderam dez bandeiras, sete capitães, quatro tenentes, sete alferes e nove tambores. Pela parte portuguesa, referem as fontes que pereceram seis europeus (dois deles espanhóis) e alguns escravos. Houve cerca de 20 feridos, mostrando uma clara diferença de baixas sofridas entre os dois lados. As fontes documentais portuguesas divergem sobre estes números, já que as escritas em épocas posteriores apresentam um número bastante inflacionado sobre o número de vítimas entre os holandeses. Na opinião de Charles Ralph Boxer, o documento mais credível é o relato oficial português, redigido logo após o acontecimento, e que aponta 300baixas ao inimigo. Os holandeses afastaram-se de Macau a 29 de Junho, após uma tentativa infrutífera para resgatar os prisioneiros holandeses. A vitória dos moradores e comerciantes de Macau assumiu um significado de grande relevo junto dos holandeses: primeiro, não conseguiriam estabelecer-se no estratégico entreposto marítimo tão ambicionado; segundo, o comércio com o Japão dificilmente lhes iria para às mãos enquanto os portugueses lá continuassem. Deste modo, só após a conquista de Malaca, em 1641, é que os holandeses começaram a marcar terreno no Sudeste Asiático. O profundo golpe vibrado nas rotas alternativas dos mercadores de Macau foi significativo, não só pelo lucro proveniente, como pelo local de passagem entre Macau e a Índia. Em 1639-1640 os japoneses expulsaram definitivamente a elite macaense do seu círculo de negócios, dando então aos holandeses a oportunidade que esperavam havia já algumas décadas. O dia 24 de Junho, dia de S. João Baptista, tornou-se o Dia da Cidade de Macau e, em 1864, o Leal Senado decidiu erguer um monumento comemorativo da efeméride. [A.N.M.]
Bibliografia: BOXER, Charles R., Estudos para a História de Macau, (Lisboa, 1991); COSTA, João Paulo (ed.), Cartas Ânuas do Colégio de Macau (1594-1627) , (Macau, 1999); LJUNGSTEDT, Anders, Um esboço histórico dos estabelecimentos dos Portugueses e da Igreja Católica Romana e das missões na China, (Macau, 1999); SILVA, Beatriz Basto da, Cronologia da História de Macau, 1°. vol., (Macau, 1992).

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Data de atualização: 2022/11/04