Pouco depois da sua chegada à península de Macau em 1557, os Portugueses introduziram as artes da pintura e da escultura ocidental no sul da China. Como tem acontecido em quase todas as colónias portuguesas e castelhanas, o braço espiritual do padroado real durante os séculos XVI, XVII e XVIII foram as principais ordens religiosas missionárias da época. Por isso, os temas da maior parte das pinturas e esculturas desses séculos que ainda sobrevivem em Macau pertencem a área da arte religiosa ou arte sacra. Por tratar de obras que imitavam padrões artísticos portugueses ou europeus, estranhos para os artistas da região ou do sul da China, muitas destas produções revelam uma certa fraqueza técnica. No entanto, o seu valor cultural e artístico pode ser excepcional. Nesta entrada não se discutem obras de arte chinesas. Mas deve-se adiantar que os portugueses em Macau souberam aproveitar as obras das artes decorativas chinesas para os seus edifícios seculares. Foi precisamente a apreciação e influência da arte laica chinesa das dinastias Ming 明 e Qing 清, o que chegou a constituir uma das características mais significativas da arte praticada ou utilizada em Macau. Durante os períodos do Maneirismo e do Barroco português, a produção artística mais importante de Macau foi nomeadamente de carácter religioso, realizada por artistas da região ou locais para as ordens religiosas. Os Jesuítas, os primeiros a chegar à colónia em 1565, foram os principais agentes desta acção cultural. Os Franciscanos seguiram-nos em 1579. Os frades Agostinhos e os Dominicanos chegaram em 1586 e 1587, seguidos das freiras Clarissas em 1633. Os missionários iniciaram o seu labor evangélico em residências muito humildes, mas já para finais do século XVI tinham-nas transformado em belos conventos e igrejas em taipa e alvenaria, para a decoração dos quais iniciaram a produção de pinturas e esculturas religiosas, além de outros objectos decorativos ou devocionais em diversos materiais. Os estilos, técnicas e materiais destes objectos artísticos abrangem desde a pintura a óleo num estilo derivado das pinturas maneiristas portuguesas, até requintadas peças de imaginaria ou de ourivesaria barrocas, aparentemente influídas por obras de ourives goeses [fig. 1]. A maior parte das obras deste género que têm sobrevivido até hoje são objectos litúrgicos ou de devoção, geralmente de tamanho reduzido, o que parece indicar que poucas foram feitas para interiores barrocos espectaculares, como os interiores das igrejas e conventos de Portugal, Brasil ou Goa. Notáveis excepções são o interior da igreja de São Domingos e o interior e fachada da igreja da Madre de Deus, da Companhia de Jesus, iniciada em 1602 e acabada uns quarenta e dois anos mais tarde. O seu interior, forrado em talha dourada e policroma à portuguesa, pereceu no trágico incêndio de 1835. Mas a fachada,com o seu conjunto escultural, sobreviveu e pode ser considerada como obra cume da arte colonial jesuítica e portuguesa [fig. 2]. Varias pinturas à óleo e esculturas em talha policroma apontam para oficinas locais dirigidas por europeus, todas pertencentes às ordens religiosas. A mais importante foi a dos Jesuítas, sob a direcção do padre italiano Gioavanni Nicolao (1560-1626) e composta nomeadamente por conversos japoneses refugiados na cidade. Bons exemplos das suas oficinas são a pintura a óleo do Arcanjo São Miguel; os bronzes da fachada da igreja da Madre de Deus; os relevos em granito de Nossa Senhora da Misericórdia [fig. 3], do Arcanjo São Miguel e outros. – 1. Surgimento da Pintura e Escultura Seculares. Ao passo que a escultura secular só surgiu principalmente a partir do último quarto do século XIX nas praças, ruas e edifícios públicos da cidade devido a artistas portugueses, a pintura secular resultou das criações de artistas estrangeiros que trabalhavam para finais do século anterior num estilo de arte importado de Cantão. Hoje melhor conhecido pelo nome genérico de China Trade, no que diz respeito à pintura e ao desenho este estilo refere-se a pinturas a óleo, aguarelas e desenhos imitativos de estilos ocidentais. Em pouco tempo este género de pinturas chegou a encher o vácuo deixado pela falta de pintura profana e teve repercussão importante na cidade ao longo do século XIX. Mas muitas destas obras eram tratadas como tantas outras obras de artesanato produzidas em Cantão para comerciantes europeus e americanos. O seu estilo só mudou com a chegada a Macau em 1825 do pintor inglês George Chinnery (1774-1852). O estabelecimento do seu atelier na cidade significou a transformação do estilo e da estética desse género de pintura. Além dos retratos de mercadores ingleses, americanos, chineses e de outras nacionalidades pelos quais Chinnery era mais solicitado, Chinnery também executou inúmeros desenhos a lápis e tinta, óleos ou aguarelas representando vistas e paisagens de Macau, Cantão e Hong Kong [fig. 4]. Antes da sua morte, o artista já tinha criado escola, formada nomeadamente de artistas amadores e por imitadores chineses em Cantão. Um dos seus favoritos, o artista macaense Marciano Baptista (1826-1896), faz parte dos primeiros [fig. 5], e o cantonense Lam Qua (Lin Gua 林呱), activo entre 1820 e 1860, é hoje considerado o melhor dos últimos. Sem a mesma influência que Chinnery, mas de igual mérito artístico, seu amigo, o francês Auguste Borget (1809-1877), realizou delicadas pinturas de Macau durante uma visita em 1838-39. A escultura ocidental não-religiosa, encomendada e concebida como verdadeira obra de arte, aparece, de modo muito apropriado para a época, no busto de Luís de Camões. Várias esculturas já tinham sido realizadas para a famosa gruta de Camões desde finais do século XVIII, mas a obra de arte definitiva é o bronze executado em 1861 pelo pintor, gravador eescultor português, Manuel Maria Bordalo Pinheiro(1815-1880) [fig. 6]. O busto de Camões de Bordalo Pinheiro só foi colocado na gruta cinco anos mais tarde. O seu estilo, típico do romantismo da época, introduziria o tema da estátua ou busto em bronze comemorativo de personagens históricos para ser exposto num local público da cidade. – 2. Lista das Ilustrações.1) Charola da Igreja de S. Domingos (pormenor), prata lavrada sobre armação de madeira, 1683; 2) Fachada da igreja de S. Paulo (Madre de Deus), pormenor, esculturas e relevos, c. 1620-1644; 3) Nossa Senhora da Misericórdia, relevo em granito, anónimo, escola de G. Nicolao, ca. 1640; 4) Entrada do Templo de Á-Má,Macau, George Chinnery, lápis sobre papel, 17.2 x24.4 cms, 1833 (© British Museum) ; 5) Cena de rua, Marciano Baptista, óleo sobre tela, c. 1840; 6), Busto de Luís de Camões, Bordalo Pinheiro, 1861. (fotos. 1,2, 3, 5, 6: Colecção do autor)

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Data de atualização: 2023/05/17