A origem do termo Paracel é portuguesa, derivando de parcel, que quer dizer escolho, baixio, recife, rochedos no mar à flor da água; utilizaram-se igualmente as grafias pracel, parecel, paressel. Foi usada a palavra (nas várias grafias), desde o século XVI, para designar o conjunto de baixios, ilhas e ilhéus do mar a sul da China, hoje designados por ilhas Paracel e ilhas Spratly, e que nos séculos XVI e XVII a cartografia portuguesa agrupava num mesmo conjunto que tinha início à latitude de cerca de 9.º do hemisfério norte e se espraiava até 17.º N. Francisco Rodrigues terá sido provavelmente o primeiro portuguêsa esboçá-las, designando-as por “Ilhas Alagadas”, no seu Livro de Francisco Rodrigues. Quer as cartas, quer os roteiros do século XVI, e mesmo de períodos posteriores, chamavam a atenção para os perigos de escolhos a partir da ilha chamada de Pulo Condor, nomeadamente a “lagea de Mateus de Brito”, a 30 léguas distante daquela ilha no rumo nordeste; os perigos redobravam a partir de Pulo Sicir do Mar, sendo mais seguro para os barcos seguirem próximo do litoral do continente (então terras de Camboja, Champá e Cochinchina, hoje território do Vietname) e apenas se aventurarem ao rumo de nordeste depois de ultrapassada a ilha de Champeiló (Cù lao Châm), onde começava a enseada da Cochinchina, prosseguindo-se até avistar a ilha de Hainão, e os ilhéus próximos (Tinhosa e Pulo Tujo). No entanto, o termo pracel aplicou-se igualmente a baixios de características semelhantes situado sem outros lugares da Terra, como no caso do ilhéu e baixios situados a noroeste da ilha de São Lourenço, de Madagáscar. Relativamente ao “Pracel” do mar a sul da China, existem várias referências em cartas e roteiros. Nos roteiros manuscritos da Biblioteca Cadaval, “Advertências para a navegação da Índia”, foi referido pelo autor anónimo que os baixos se estendiam em arco desde Pullo Siçir (ilha que se localizava à latitude de 13.º N, afastada de terra firme 12 léguas, e hodiernamente território vietnamita) e que durante 20 léguas havia perigo, sendo a cabeça dos parcéis à latitude de 17.º N, abrangendo 15 léguas de largo). Em 1544, esse mesmo autor anónimo terá ido parar a esta região por incúria do piloto chinês. No Livro de Marinharia de Gaspar Moreira referem-se “os baixos onde se foi perder Lionel de Souza” (português que negociou com os mandarins de Cantão a autorização que permitiu, em 1554, a possibilidade de os portugueses fazerem comércio em Lampacau) e que correspondem aos escolhos das Paracel. Os desenhos das cartas indiciavam uma faixa contínua e alargada de sul para norte; ainda no roteiro elaborado por Jean Baptiste Nicolas Denis D’Après de Mannevillette, intitulado Le Neptune Oriental, ou routier général des côtes des Indes Orientales et de la Chine enrichi de Cartes hydrographiques tant générales que particulières, pour servir d’Instruction à la Navigation de ces différents mers, publicado em Paris, em 1745, se continua a dar essa ideia de continuidade do grande banco de rochas e ilhas de tamanho variável, com bancos de areia à mistura, numa extensão que é dita de 92 léguas e numa largura de 20 léguas, até à latitude de 16.º e 45’ do hemisfério norte, tendo o autor anotado que copiou uma planta desenhada por um piloto português que navegou muito tempo em barcos da Cochinchina e que fez variadas viagens a este banco; no entanto, na edição de 1775 da mesma obra, o autor acrescenta que, de acordo com a sua própria experiência de ter navegado na área quando regressava de Cantão, em 1738, no barco do príncipe de Conti, não conseguiu aperceber-se da existência de tantos baixios, admitindo a possibilidade de haver interrupção, ou de serem tão baixos que se tornava difícil observá-los a alguma distância. Nos nossos dias existe um intervalo entre um grupo e o outro, ou seja, entre as Paracel e as Spratly, e essa mudança não significa necessariamente uma incorrecta percepção por parte dos cartógrafos e nautas de outros tempos, visto que, sendo aquela área uma zona de sismicidade acentuada, podem ter desaparecido da superfície alguns dos escolhos que tanto atormentaram os marinheiros nos tempos em que não existiam meios de detecção sofisticados. Toda esta vasta região das Paracel e Spratly foi cenário de naufrágios frequentes de barcos portugueses, sobretudo em épocas em que só os ventos e as correntes permitiam a deslocação dos barcos. Não é mesmo possível fazer uma estimativa exacta do número de embarcações perdidas a partir de 1511. Só a título excepcional os sobreviventes conseguiam voltar a qualquer porto, acabando normalmente por morrer sem receber em qualquer socorro. Naturalmente, navios de outras nacionalidades que se arriscassem por tais paragens, também sofriam as mesmas dificuldades. Existe um relato de naufrágio inédito, datado dos fins do século XVII, redigido por um padre jesuíta, contando-nos as inúmeras vicissitudes de um grupo de náufragos (alguns dos quais residentes em Macau) que conseguiram a façanha de sobreviver sete anos e voltar a essa cidade, quando já toda a gente lhes tinha rezado por alma havia muito tempo. O episódio teve início no ano de 1682, a 22 de Março. Para vencerem dificuldades económicas os mercadores portugueses associavam-se a outros asiáticos. Foi o que sucedeu neste caso, viajando num barco do rei do Sião (actual Tailândia) que voltava de Manila (capital das Filipinas) e que encalhou numa restinga de pedra em pleno mar, à latitude de 11.º Norte, na região das Spratly. A bordo encontrava-se gente de várias nacionalidades e crenças religiosas, nomeadamente do Sião, da China, de Portugal e de outras regiões asiáticas, e também um espanhol oriundo de Manila, nas Filipinas. Convém esclarecer que os cristãos, quer asiáticos, quer luso-asiáticos, usavam nomes portugueses e era frequente cooperarem nos negócios, como se pode verificar no presente exemplo. A coesão do grupo de pessoas que se encontrava no junco naufragado era frágil e perante as dificuldades prevaleceram as diferenças, hostilizando-se os comportamentos. O piloto e os tripulantes, naturais do Sião, puseram-se em fuga num pequeno bote a pretexto de lançarem âncora; ainda fizeram escala numa outra ilha para arranjarem provisões, e aí os alcançou um cristão que lá conseguiu chegar agarrado a um pau; depois, seguindo as correntes, atravessaram o vasto canal e em sete dias atingiram o litoral do Vietname (então Cochinchina), prosseguindo depois viagem para o Camboja. As jangadas improvisadas, em que vários grupos (gente do Sião, chineses e mouros) se aventuraram, carregando tudo o que podiam, afundaram-se à vista dos que ficaram no local do naufrágio. Em breve o grupo de cristãos que se quedara isolado na solidão do oceano iniciou uma aventura, sobrevivendo mesmo quando a esperança desocorro por parte de algum dos barcos que avistavam se desvaneceu, contando o tempo da monção das tartarugas à dos pássaros durante sete anos. A procura de alimentos e a sua confecção, a produção de fogo e recipientes de cozinha, a construção de habitações, de jangadas e de um barco, a feitura de vestuário, bandeiras, contas de rezar e jogos de entretinimento encheu o relato de pitoresco e mostrou a fragilidade do ecosistema desses pequenos espaços onde qualquer desequilíbrio punha em perigo a vida do grupo. A falta de alimentos e a definitiva convicção de que ninguém os socorreria de uma morte certa deu-lhes coragem para construírem uma espécie de barco mais semelhante a um caixão, com os restos de madeira e pregos do junco naufragado. Seguindo a “rota dos pássaros”, empurrados por correntes e tufões, sobreviveram, e escalaram ilhas desabitadas, desde as Spratly às Paracel, até que alcançaram Hainão e, finalmente, chegaram ao litoral da China. Trata-se da primeira ocupação de ilhas na região das Spratly de que há notícia. Alguns dos náufragos faleceram durante a estada e foram ali enterrados pelos companheiros. Conhecem-se os nomes portugueses de dez sobreviventes, todos cristãos que voltaram a Macau, sendo eles Bento Marques, natural de Lisboa e casado no Sião, Manoel Machado, natural de Santarém e residente em Macau, Manoel Roiz e João Roiz de Sião, Paulo Dono, filho de pai japonês e de mãe da Cochinchina (actual Vietname), José de Sequeira,“chingala” de Ceilão, Jorge Pires, “malabar”nascido em Malaca, João Lumague, “papango” das Filipinas, Urbano da Sylva, de etnia chinesa, Luís Bengala, moço de Bento Marques. [I.A.T.M.]
Bibliografia: BOURDON, Léon; ALBUQUERQUE, Luís de (ed.), Le “Livro de Marinharia” de Gaspar Moreira, (Lisboa,1977); CORTESÃO, Armando (ed.), A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues, (Coimbra, 1977); MANGUIN, Pierre-Yves Manguin, Les Portugais sur les Côtes du Viêt-Nam et du Campa, (Paris, 1972); MOURÃO, Isabel A. Tavares,“De Ilhéu em Ilhéu. Sete Anos de Caminho até Macau…”, in Portos, Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, vol. 2, (Ponta Delgada, 1999), pp. 359-377.

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Data de atualização: 2023/05/17