Do complexo e vasto simbolismo que anda associado ao dragão, prevalece o aquático, como se observou. Os dragões vivem na água, e cospem raios que fazem brotar as nascentes, estando, porisso, ligados à produção da chuva fertilizante. Unindo a terra e o céu, o dragão simboliza sobretudo a chuva celeste que fecunda a terra. É, assim, um animal auspicioso, de bomaugúrio, e as danças que tradicionalmente lhe eram dedicadas, destinavam-se a pedir-lhe chuva. Em Macau é familiar a todos a dança do dragão,que normalmente se realiza no 2.º dia do Ano Novo Lunar (ou festividade da Primavera, como é hoje conhecida na República Popular da China). Sendo uma das manifestações folclóricas chinesas mais apreciadas pelos estrangeiros, evido ao seu movimento, cor e espectacularidade, costuma atrair uma enorme multidão e constitui o ponto alto dos programas festivos preparados para celebrar a mais importante data do calendário lunar. Em ambiente lúdico, a dança inicia-se com uma breve cerimónia para “despertar” o dragão. Uma vez desperto, com uma pincelada nos olhos e no meio da língua, corre atrás da pérola de cinábrio – a essência que deixou fugir. O corpo, com cerca de 100 metros,é transportado por dezenas de homens muito ágeis, e a cabeça, controlada por outra pessoa, segue os movimentos ziguezagueados de uma tocha de fogo, que é transportada por outro homem, em passo de corrida. Percorre importantes áreas da cidade, enquanto a população comenta festivamente: longxi zhu 龍戲珠 “o dragão brinca com a pérola”. Esta dança era bem menos colorida, ainda em tempos recentes. Com origem num ritual de súplicas ao deus dragão, que se realizava para marcar as comemorações mais importantes ou para rogar chuva em tempo de seca, a dança tinha também um carácter exorcizante. Destinava-se apedir chuva e a afastar epidemias no ano que se iniciava. O missionário americano Justus Doolittle que em meados do século passado trabalhou no Sul da China durante 25 anos, é um dos muitos estrangeiros que observou e relatou oritual. Na descrição,transcrita por Cecília Jorge, narra como em épocas particularmente secas se organizavam preces públicas pela chuva, quer entre as classes altas da sociedade, quer entre o povo inculto. Por vezes constroem uma imagem […] a que chamam rei dragão […] Sendo muito leve, é carregada em procissão […] gritando “vem aí a chuva!” ou “que chova! que chova!” . Homens e rapazes transportavam bandeiras a anunciar que se ofereciam “preces pela chuva”ou “para salvação e alívio do povo” . Outros carregavam gongos e tambores, fazendo-os soar incessantemente pelas ruas enquanto desfilam.Um dos homens aspergia o chão ressequido com um ramo de bambu, clamando “venha a chuva! Venha a chuva!” . Os participantes, gente simples do povo, usavam chapéus de forma cónica e trajavam de branco, a cor do luto. Muitos seguravam um pivete de incenso aceso. Por vezes, o desfile entrava nos pátios das residências oficiais ou dos nobres de então, aproveitando estes para oferecer incenso ao rei dragão. Nos dias em que estas procissões de preces, rogos e súplicas se efectuavam, os comerciantes da zona colocavam sobre os balcões das suas lojas uma espécie de cartaz de papel dedicado ao “Rei Dragão dos Cinco Lagos e Quatro Mares. Aquele que nos Concede a Chuva” . À frente do cartaz ardem três pivetes de incenso e velas de cera brancas. The Moon Year, reproduz uma expressiva fotografia que documenta o carácter exorcizante e precatório destas procissões. [A.J.G.A.]
Bibliografia: ARAÚJO, Amadeu, Diálogos em Bronze – Memó - rias de Macau, (Macau, 2001); BREDON, Juliet; MITROPHA- NOW, Igor, The Moon Year, (Hong Kong, 1982); CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos Símbolos, (Lisboa, 1982); CHRISTIE, Anthony, Chinese Mythology, (Hong Kong, 1983); COULING, Samuel, The Encyclopaedia Sinica, (Hong Kong, 1983); EBERHARD, Wolfram, A Dictionary of Chinese Symbols, (New York, 1998); JORGE, Cecília, Dragão, Dragão, in Revista Macau, II série, n.° 13, (Macau, 1993), pp. 22-31; ROCHA, Rui, O Início do Milénio sob o Signo do Dragão, in Revista Macau, II série, n.° 92, (Macau, 1999), pp. 274-283; WERNER, E.T.C., Myths and Legends of China, (New York, 1994); WILLIAMS, C.A.S., Outlines of Chinese Symbolism & Art Motives, (New York, 1976).

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Data de atualização: 2023/05/16