Quando a aldeia de Mong Há (Wangxia 望廈) cresceu, em função dos muitos refugiados que na segunda metade do século XIX acorreram a Macau, vindos da China, os incipientes aterros periféricos começavam, já, a contornar a Península. A Sudoeste da aldeia, numa das suas entradas pelo litoral, ficava San Tei (Xindi 新地), em mandarim, Novo Terreno ou Terra Nova em tradução literal). E foi nesse local de fácil acesso que foi erguido, então, um novo templo em honra de Sin Fong (Xianfeng 先鋒, Pioneira), uma divindade tutelar. Este templo data, pelo menos, do 4.º Ano do Reinado de Guangxu 光緒 (1878) pois existem nele ofertas com essa data inscrita. Contudo, é de admitir que a sua construção tenha sido anterior, a avaliar pela inscrição que podia ler-se numa placa sonora ali existente, peça que deve ter sido doada por ocasião da sua fundação e que datava do reinado de Daoguang 道光 (1821-1850). Porém, todos os demais vestígios antigos haviam desaparecido, menos esse teng (ding 鼎) (pedra sonora de ferro suspensa no pátio interior), que se ia desfazendo em ferrugem. O templo de Sin Fong (Xianfeng 先鋒), bem como o Lin Fong (Lianfeng 蓮峰), outrora à beira da água e frequentemente inundado, não pertencia propriamente à povoação de Mong Há (Wangxia 望廈), mas sim à chamada povoação marginal de San ti (San Tei) (Xindi 新地: San Tei Hó Pin Chün (Xindi Heping Cun 新地和平村). De facto, perdido nos confins da velha aldeia de Mong Há (Wangxia 望廈), entre as últimas casas que restavam entre prédios recentes, no extremo da actual travessa Coelho do Amaral, era onde se encontrava o Sin Fong Miu (Xianfeng Miao 先鋒廟) nos anos 1960-1970. O templo estava, então, decorado com cortinados de cretone chinês florido, que mãos piedosas haviam enriquecido com bordados a lantejoulas num contraste gritante, com o par de fan 幡) (faixas laudatórias) em pano de algodão suspensas do tecto. Quanto às estátuas das divindades, estas eram esculpidas em madeira e berrantemente pintadas de esmalte, o que deixava dúvidas quanto à sua antiguidade. As placas dos doadores ou benfeitores, que se encontravam, ainda, noutros templos, haviam já desaparecido, e por isso mais parecia, devido ao degrau da base de uma velha porta entaipada, que o templo fora talvez assaltado e roubado o seu recheio. À porta, um velho leão em pedra, parecia deslocado. É possível que tenha sido levado doutro templo ou residência abandonada, onde terá deixado o seu complemento simétrico. O templo, pintado de verde claro, conservava, num muro, um baixo relevo em estuque de delicado trabalho, onde ainda se podiam distinguir peónias e flores de ameixieira. Este era, aliás, o mais belo lavor de todo o recinto. O rodapé de granito e os umbrais da porta, os painéis de estuque em baixo relevo, onde apenas, mais se adivinhava do que via uma paisagem rochosa, dominada por flores e folhagem, atestavam, realmente, que a primeira construção do templo chinês era antiga e ditada pela devoção. Foi todo este valioso património arquitectónico de Macau que a Aldeia de Mong Há (Wangxia望廈) representava que foi esquecido e veio a perder-se. Se o primeiro golpe na Aldeia de Mong Há (Wangxia望廈) foi o grande incêndio nos bambuais, causado, segundo uns, pelo descuido de algumas devotas que queimavam papéis votivos e, segundo outros, atribuído aos Portugueses dentro do seu plano de saneamento e, ainda, de acordo com a opinião doutros velhos residentes, resultado da vingança dos aldeãos rivais de Sái Kong (Xijiang 西江), a verdade é que, foram, sem dúvida, as expropriações e os aterros levados a efeito pelas equipas das Obras Públicas, que deram os últimos golpes na mais antiga aldeia chinesa extramuros de Macau nas primeiras décadas do século XX. Aquando da implantação da nova dinastia manchu em meados do século XVII ergueuse uma bonzaria na Região do Monte do Caranguejo, na Colina do Ouro (Colina de Mong Há (Wangxia 望廈) contígua ao anterior templozinho dedicado a Kun lâm (Guanyin 觀音). Foi feita, então, uma reprodução da primitiva imagem encontrada a boiar no rio, que se conserva em Ku Lam Ku Miu (Guanyin Gumiao 觀音古廟) e uma nova compassiva “Deusa de Misericórdia” passou a proteger os bonzos de Pou Chai Sin Un (Puji Chanyuan 普濟禪院) que, entre as suas rezas, se ocupavam principalmente de política. Só mais tarde foi erguido o templo de Sin Fong (Xianfeng Miao 先鋒廟), general aguerrido, vencedor de demónios e malefícios, que foi construído para proteger a aldeia pelo lado ocidental, nos novos territórios que a circundavam pelo litoral em direcção a Sai Kong (Xijiang 西江). Este foi, afinal, o último templo que os moradores daquela região de Macau ergueram às suas divindades, as quais, ao que parece, não terão escutado as suas preces. [A.M.A.] Bibliografia: AMARO, Ana Maria, “O Velho Templo de Kun Iâm em Macau”, in Boletim do Instituto Luís de Camões, vol. I, n°s. 4 e 5, separata, (Macau, 1967); Arquivos dos Serviços de Obras Públicas de Macau, (1960-1970); Dados recolhidos pela autora na tradição oral entre os moradores da aldeia de Mong Há e monges do Kun Iâm Tong.
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