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Data de atualização: 2019/08/06
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515














Data de atualização: 2019/08/06
Quanto às especiarias, a China era a região originária de uma das espécies de canela, Cinnamomum Cassia, nos sectores mercantis mais conhecida por Cassia lignea. A propósito da canela, Garcia da Orta, já em 1563, se referia com um razoável conhecimento à longínqua tradição de navegação chinesa no Índico e na Costa Oriental de África, para onde vendiam as suas mercadorias preciosas. O conde de Ficalho, citando alguns autores, revela-nos que a canela já era mencionada sob o nome de Kwei (Gui 桂) na obra Shen-nung Pen Tsáo King (Shennong Bencao Jing 神農本草經) [Matéria Médica] do imperador chinês Shen-nung (Shennong 神農) (cerca de 2.700 a.C.), e reforça a tese segundo a qual a primeira canela conhecida no Ocidente foi a canela chinesa. Garcia da Orta refere a utilização medicinal e também como condimento alimentar da canela: “He muy gentil mézinha pera o estomaguo, e pera tirara dor da coliqua, […] Faz o rosto vermelho, e de boa cor, tira o mao cheiro da boca, […] he saborosa e boa pera temperaremos comeres”. Era vendida em Cantão por 3 taéis o pico, e era exportada pelos Portugueses de Macau para o Japão, para Manila e América. Louis Dermigny informa-nos que a China exportava anualmente, no século XVIII, através de Cantão, cerca 5 mil picos de canela. A grande vantagem da canela da China é ser parecida à dispendiosa canela de Ceilão (de preço 3 a 4 vezes superior), pelo que os mercadores podiam misturar uma parte da chinesa, de forma a aumentar o lucro. A grande desvantagem da canela chinesa reside no seu forte cheiro, enquanto que a de Ceilão é sempre muito agradável. O gengibre (é o rizoma da planta Zingiber officinale, planta da família das Scitamineae) era uma especiaria muito apreciada em todo o Oriente, como condimento alimentar ou na confecção de drogas medicinais. Originário da Índia e Malásia, era igualmente produzido na China, em grandes quantidades, onde o célebre viajante veneziano Marco Polo encontrou muitos campos de gengibre. No Roteiro da Viagem de Vasco da Gama refere-se o preço de um quintal de gengibre de 4 cruzados, em Calecute, para 11 cruzados em Alexandria. Por ser tão lucrativo e passível de utilização quotidiana, passou a representar o segundo lugar nas especiarias trazidas para Portugal, logo após a pimenta, na primeira metade do século XVI. O gengibre branco e vermelho são o mesmo rizoma, só que depois de seco, e para preservá-lo por mais tempo nas viagens, era envolvido em argila, daí que tomasse a cor avermelhada do barro. O gengibre era especialmente sensível às difíceis condições de transporte marítimo pelo Índico e Atlântico, chegando em mau estado parte dele, pelo que o gengibre transportado, a partir de Alexandria e Beirute, pelas galés venezianas através do Mediterrâneo, chegava ao destino frequentemente em melhor estado, pelo que atingia preços mais elevados. Peter Mundy, em 1637, refere que, durante a sua estadia em Macau, vários mercadores Ingleses tinham ido a Cantão, onde tinham comprado abundante carga de gengibre. Quanto ao açúcar, já vimos que Jorge Pinto de Azevedo se referia à sua abundância como se um dilúvio benéfico da natureza tivesse bafejado a China. Bocarro refere a abundância e a grande procura dele: “pois só de asuquares carregão o lastro muitas embarcaçöes”. Cerca de 1600, a nau portuguesa transportava, de Macau ao Japão, “60 a 70 picos de açúcar branco, custando 15 mazes o pico, é vendido no Japão a 3 ou 4, 5 taéis, mas não é muito usado, porque os Japoneses preferem o amarelo. Este último custa 4 a 6 mazes em Macau, e é vendido no Japão por 4, 5 e 6 taéis o pico. É portanto um artigo muito lucrativo e o navio levará 150 a 200 picos”. Para a Índia, a nau transportava normalmente “2 ou 3 [centenas?] de picos de açúcar e o capital dobrará ou ganhar-se-á para cima de uma vez e meia”, segundo um documento da época. Semedo referiu a província de Guangdong 廣東 como uma produtora abundante de açúcar, e Peter Mundy refere-se, em 1637, às grandes potencialidades da China como produtora e exportadora de açúcar: “Uma vez que este comércio se estabeleça, somos capazes de trazer tanto açúcar que abasteça não só a Inglaterra, mas o resto da Europa; além do que, sendo levado à perfeição, será de mais valor para Vossa Magestade do que o Brasil era para os Reis de Portugal, antes dos Holandeses o terem perturbado. Também fornecerá o Achem e a India com açúcar, lugares em que renderá um lucro razoável”. Cerca de 1775 sabemos que o açúcar pagava 15% de direitos na alfandega de Macau, quer fosse em pedra ou em pó, sem referência à cor. D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho escreveu, em 1779, uma “Relação do comércio em os diferentes portos da Azia” (AHU, cód. 1652), onde nos refere que o açúcar, em pedra ou em pó, era igualmente exportado para a Costa do Malabar, para o Coromandel e para Bengala (só o açúcar de pedra, de 9 e 10 taéis o pico, é referido como exportado para este porto). O açúcar é assim apresentado como um dos produtos muito lucrativos do comércio da China, podendo dar um lucro até cerca de 200% do capital investido. É interessante verificar que a capacidade produtiva de açúcar pela China é considerada, no século XVII, como ultrapassando a melhor fase produtiva do Brasil, e que as potencialidades exportadoras chinesas dariam para abastecer o mercado asiático e o europeu. Por outro lado, revela-se que o açúcar amarelo era preferido dos japoneses, permitindo auferir ainda maiores lucros aos comerciantes portugueses. Nas especiarias, predominantemente de uso alimentar, a pimenta cedo assume uma importância destacada. Visto não ser um produto de origem chinesa, e a procura do mercado consumidor ser grande, a sua importação foi garantida por um intenso comércio marítimo. Desde muito cedo que os viajantes europeus descreveram a enorme apetência mercantil chinesa por esta especiaria estrangeira. Tomé Pires refere-nos (cerca de 1515): “A principal mercadoria he pimenta, de que compraram dez juncos cada anno se tamtos la forem”. Acrescenta igualmente que os Portugueses idos de Malaca “da pimenta pagavam vimte por cento” de direitos alfandegários. O que nos revela que nessa época inicial do comércio português com a China, era ainda aplicado o método de cobrança segundo o tipo de mercadoria transportada (método que viria posteriormente a ser substituído por um pagamento fixo segundo a medição do navio, independentemente das mercadorias nele transportadas). Duarte Barbosa refere que os Chineses importam “muita pimenta da que nasce em Samatra e da que vem do Malabar […], se gasta muita na China, que vale a quinze, dezasseis cruzados o quintal e daí para cima, segundo a quantidade que vai e as terras onde a levam. Em Malaca a compram a quatro cruzados o quintal, pouco mais ou menos”. Gaspar da Cruz refere que, nos anos de 1517 a 1522, toda a pimenta de Samatra era uma grande mercadoria para a China. Um dos factores que impulsionou o importação de pimenta pela China ficou a dever-se a ter sido utilizada como forma de pagamento aos funcionários, no início da dinastia Ming 明 (tal como o sândalo). Em 1779, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, informa-nos que a pimenta paga 5% de direitos de entrada em Macau, e que “comprase nos mesmos portos [da Costa do Malabar], custa em Talacheira o candil mouro a 130-140 rupias. É boa por ser limpa e redonda, deve estar bem seca, custumam molha-la para pesar mais. O seu preço depende da colheita e do n.º de navios vindos da China (normalmente em Março) e pesa-se por candis de Bargaré”.
Produto alimentar - Especiarias
Como exemplo de doces transportados nos grandes navios portugueses, Pedro Baeza, em 1600, refere-nos o melaço carregado em Macau para a viagem do Japão: “150 picos de Melaço, custando cada pico entregue em Macau 3 taéis. É vendido no Japão por 9 a 10 taéis, triplicando assim o capital”. A Ásia Sínica e Japónica refere-nos que em Macau se fazem muitos doces, nomeadamente de vários frutos, como das laranjas, e legumes como das “Cambalengas [ou camolenga, ou abóbora de água, em chinês Tong-kua (Donggua 冬 瓜), nomes científicos: Benincasa cerifera (Savi), ou Cuburbita pepo (Roxb)], destas usão ordinarimente para doces, porque tambem não faltão canaviaes de assucar neste Império”. Barbatanas de tubarão, são um outro produto muitíssimo apreciado na China, de tal forma que a sua importação e o seu comércio era bastante rentável em Macau. Era importado, nomeadamente, da Costa de Malabar para a China, sendo alvo dos relatórios mercantis, como o que D. Francisco Coutinho escreveu em 1779, “Relação do comércio em os diferente portos da Azia”. Nesta, o autor alerta para as melhores características que o produto deve ter, os principais portos de origem, e o preço segundo o tipo e qualidade da barbatana: a “asa de Tubarão que se compra em Talacheira, Cananor, Mangalor, em ser boa sendo lisa e gorda, e as barbatanas serem as pontas pretas, e pela parte interior brancas e lustrosas, e as melhores são as de lombo. Neste género se deve examinar, que seja limpo de carne, que ainda assim sempre quebra 10 a 10, 5%. Costuma custar ordinariamente o da 1.ª sorte 40 e 45 rupias o pico, o da 2.ª – 30 rupias e o da 3.ª – 20 rupias. A asa de tubarão de Mascate não presta por ser branca, e a asa da Tintureira não presta e não a querem”. Os ninhos de pássaros, normalmente de andorinha, são uma secreção estomacal rica em restos de mariscos, que a andorinha marítima previamente deglutira. Chamado pelos chineses de Yanwo 燕窩, eram classificados em três diferentes classes, segundo o seu grau de pureza e o seu local de origem, e naturalmente eram vendidos com preços diferentes. Entre 1589 e 1615, as taxas alfandegárias cobradas às mercadorias importadas pela província do Fujian 福建 foram registadas no livro Dongxiyang kao 東西洋考, da autoria de Chang Hsieh’s (Zhang Xie 張燮), publicado em 1617. Segundo esta fonte histórica, as taxas (pagas em prata) por cada 100 jin 斤 de ninhos eram as seguintes: os de categoria superior, pagaram 50g de prata (1 liang 兩) no ano de 1589 e 43, 2g (8 qian 錢 6 fen 分 e 4 li 釐) no ano de 1615; os de nível médio pagaram, em 1589, 7 qian 錢 (35g) e no ano de 1615, 6 qian 錢 e 5 fen 分 (32, 5g); os ninhos de qualidade inferior pagaram em 1589 a taxa de 2 qian 錢 (10g) e no ano de 1615 pagaram 1 qian 錢 e 7 fen 分 e 3 li 分 (8, 65g). Os ninhos eram provenientes de Jiaozhi, Champa, Camboja, Patane, Pahang, Malaca, Johor e Achém. Os navios portugueses também participavam neste comércio inter-regional asiático. Foi um produto muito conceituado e que entrava na ementa dos chineses com poder de compra, pois era importado e o seu valor era sempre elevado, para além de ser utilizado como produto de efeitos terapêuticos no tratamento da tosse e catarro. Ainda hoje os verdadeiros ninhos são muito apreciados e muito dispendiosos. Para finalizar, pensamos ser pertinente referir o exemplo da ementa de uma típica refeição chinesa, de cerimónia (quando se recebia uma visita especial), em Macau, na passagem do século XIX para o XX, para percebermos como se interligavam esses alimentos à mesa. Assim, passamos a descrever o “menu authentico d’um jantar que há poucos anos, foi oferecido ao […] secretário-geral, que era então do governo de Macau, […] dr. Manuel Paes de Sande e Castro”, oferecido por um negociante chinês, e apresentado na revista Ta-Ssi-Yang-Kuo (Daxiyangguo 大 西洋國): Começou o jantar com: quatro pratos frios (Si-lang-fan [Silenghun 四冷葷]) – costeletas em molho de sutate (Pui-kuat [Paigu 排骨]), ovos de pata salgados (Pi-tan [Pidan 皮蛋]), camarão salmourado (Chou-mi [Zaowei 糟味]) e conservas azedas (Pi-há [Pixia 皮蝦]); 4 frutas passadas (Si-keng-Kuo [Sijingguo 四京果]) – uvas (Tai-tsi [Tizi 提子]), trate (Lintsi [Lianzi 蓮子]), amêndoas (Hang-ien [Xingren 杏 仁]) e pevides (Hung-kua [Honggua 紅瓜]); 4 frutas frescas (Si-sang-kuo [Sishengguo 四生果]) – laranjas (Tim-ch’ang [Tiancheng 甜橙]), pêras (Sut-li [Xueli 雪 梨]), carambolas (Young-t’on [Yangtao 洋桃]) e tangerinas (Tim-cam [Tiangan 甜柑]); 6 pratos quentes (Loc-nguit-sec [Liushushi 六熟食]): guisado de pombos sem ossos (Pac-cap-pin [Baigepian 白鴿片]), codorniz picada com presunto (Am-chon-song [Anchunsong 鵪鶉崧]), pele de pé de pato recheada com presunto e carne de galinha (Chan-hap-cheong [Chaoyazhang 炒鴨掌]), manduco guizado com presunto (Tin-cai-toi [Tianjitui 田雞腿]), céu de porco com presunto (Vong-han-tin-tai [Wanghoutianti 王喉天 梯]) e gelatina de fungos com carne de galinha (Su-ngi [Yu’er 榆耳]); bolos, salgados e doces de farinha (Aamtim- lim-sam [Xiantiandianxin 鹹甜點心]); 11 pratos grandes (Kan-tai-un [Jiudawan 九大碗]) – gelatina de galinha com asa de peixe (Kai-iung-u-chi [Jirongyuchi 雞容魚翅]), ninho de pássaro com presunto (In-vo [Yanwo 燕窩]), bicho-de-mar (Hoi-sam [Haishen 海參]), bucho de peixe (Iu-tu [Yudu 魚肚), pato com recheio de cevadinha e carne de porco e presunto (Chun-hap [Quanya 全鴨]), cágado mole (Ton-samsoi [Dunshanrui 燉山瑞]), galinha cozida (Yun-iongkai [Yuanyangji 鴛鴦雞]), cogumelos (Tong-ku [Donggu 冬茹]), porco gordo assado (Kau-ioc [Kourou 扣肉]), bolos de farinha com com carne de porco gordo (Ho-ip-kun [Heyejuan 荷葉卷]) e caldo de galinha com ovos (Tan-fu-tong [Danhuatang 蛋花湯]); quatro pratos para arroz (Sin-fan-choi [Sifancai 四飯 菜]) – pato salgado (Lap-hap [Laya 臘鴨]), chouriços (Fung-cheong [Fengchang 風腸]), ovos salgados (Hamtan [Xiandan 鹹蛋]) e ervas cozidas (Chiang-choi [Qingcai 青菜]); 4 tipos de temperos (Si-Mei-tip [Siweidie 四味碟]) – semente de mostrada (kai-lat [Jiela 芥辣]), sutate branco (Pac-yao [Baiyou 白油]), manteiga de porco (Chu-yao [Zhuyou 珠油]) e vinagre preto (Chut-chu [Zhecu 折醋]); por fim, quatro “Adubos” (Ku-iut [Guyue 古月]) – pimenta (Au-chufan [Hujiaofen 胡椒粉]), molho de pó de feijão (Tim chiong [Tianjiang甜醬]), vinho de ameixas (Chengmui- chao [Qingmeijiu 青梅酒]) e vinho aguardentado (Fan chão [Fenjiu 汾酒]). [R.D’Á.L.] Bibliografia: BARBOSA, Duarte, Livro do que Viu e Ouviu Duarte de Barbosa no Oriente, (Lisboa, 1989); BOXER, Charles R., O Grande Navio de Amacau, (Macau, 1988); CHAUDHURI, K. N., The Trading World of Asia and the English East Indian Company, 1660-1760, (Cambridge, 1978); CORTESÃO, Armando (ed.), A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues, (Coimbra, 1978); DERMIGNY, Louis, Le Commerce a Canton au XVIIIe Siècle, 1719-1833, 4 vols., (Paris, 1964); D’INTINO, Raffaella (ed.). Enformação das Cousas da China (Lisboa, 1989); FELNER, Rodrigo José de Lima, Subsídios para a História da Índia Portugueza, (Lisboa, 1868); FERRÃO, José E. Mendes, A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, (Lisboa, 1992); GERNET, Jacques, Le Monde Chinois, (Paris, 1972); GREENBERG, Michael, British Trade and the Opening China, 1800-1842, (Cambridge, 1951); HSU, Immanuel C. 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Outros Produtos Alimentares
| Palavra-chave: | Casa de Chá Kio Kei |
| Abastecimento de chá |
| Idioma: | Chinês |
| Tipo: | Imagem |
| Identificador: | p0015923 |
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